29 junho 2015

Cira e o Velho, Walter Tierno



Cira é uma das filhas de Cobra Norato com a bruxa descendente de sereias Guaracy. Também a preferida do homem-cobra. A história narrada em Cira e o Velho, de Walter Tierno e publicado pela Giz Editorial, é a da vingança pelos sofrimentos que Cira passou durante o ataque que sofreu junto com sua mãe e arquitetado por sua tia Maria Caninana, com ajuda de um velho bandeirante e um caraíba.

No início temos um homem que se diz obcecado pela figura de Cira, personagem que descobriu em uma figurinha desses álbuns colecionáveis que circulam por bancas de revistas. Por conta dessa obsessão, ele chega até o vilarejo onde mora Dona Nhá, que dizem conhecer muitas histórias de Cira, por ter justamente com ela convivido. 

São essas histórias de Dona Nhá que comporão principalmente o grosso da narrativa, mas sem ser por meio de suas palavras. Acontece que o tal homem, o qual só descobrimos a identidade no final do livro, considera tudo muito confuso e num linguajar incompreensível e, por isso, resolve organizar a história.
Não sei como ela conseguia tantas iguarias em um vilarejo tão miserável, mas não há como negar que eram acompanhamentos perfeitos para suas histórias – e qualquer um que visite Dona Nhá há de concordar: ela tem muitas a oferecer. Mas não é uma contadora tão boa quanto anunciou a professora, sinto dizer. Sua dicção e seu vocabulário desafiam a compreensão de qualquer linguista. Pior, as histórias são muitas, sim, mas ela apresenta aleatoriamente, sem coerência cronológica. Ela simplesmente vai misturando os fatos puxados de um lado e de outro e você ali, tentando entender de que raios ela está falando; quando consegue, ela muda de assunto. Parte dessa confusão vinha de sua euforia. Dona Nhá sentia prazer e falar sobre Cira.
Não é justo submeter leitores ao martírio da transcrição exata do que Dona Nhá me disse. Afinal, trata-se de 50 horas de gravação e cinco cadernos de anotações. Por isso, vou tentar traduzir o que consegui entender e da forma mais coerente possível. (p. 17)
Aqui, o narrador ignora as características muito básicas dos contadores de histórias, a sua vivência linguística e afetiva, isso porque, não é a cronologia, o nosso tempo linear, que dita muitas vezes os acontecimentos da forma mais cristalizada da prosa, que dita a ordem, é a memória, são os laços afetivos das lembranças que vão puxando uma por uma, num desvelar narrativo. Sobre a linguagem, a temporalidade e a diferença de instrução, que me parece levar o narrador ao preconceito linguístico, geram essa riqueza do falar.

Ao dizer que nos traduzirá e organizará, ele institui que a forma correta de narra uma história é a da linearidade é a da língua institucionalizada como padrão.

Foi nesse exato momento em que me pareceu perder um pouco a graça na história, que vai apresentando uma riqueza de detalhes até interessante, mas que me parece incoerente com o fato de ser proveniente de uma narrativa oral. Para quem estuda ou está habituado a escutar narrativas orais, sabe que na performance do contador, uma riqueza de detalhes é algo praticamente inexistente, pois ele tem que se ater aos acontecimentos, a ação, para que seus ouvintes permaneçam atentos e, poucas vezes, ele portará como um narrador onisciente explicitando nuances de sentimentos e pensamentos. Quando o faz, é de forma prática e concisa.

Não é isso que temos nesse narrador-organizador. Ele preenche lacunas, tanto de pensamentos e sentimentos, como de detalhes e de acontecimentos, que Dona Nhá, e mesmo os outros informantes que ele nos vai apresentando. A menos que, isso suposição minha, seja parte da memória de quem ele é na trama.

Sobre um desses informantes, o Guardião da Floresta, ele é um viciado em tabaco que, com as mudanças ocorridas nas cidades, torna-se um dono de boate viciado em cocaína. Considerei essa adaptação do ser folclórico um tanto desnecessária pra narrativa em si. Outros elementos que não esses poderiam ter sido utilizados para a construção dos eventos que se pretendia.

No mais, o desenvolvimento da narrativa é interessante, consegue manter o ritmo e chegar em um final, que, embora considere um pouco mau explicado / desenvolvido, com cara de término.


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Um comentário:

  1. Caramba, Dan! Que boa resenha!!!
    Me despertou a vontade de ler a história e me fez concordar com as críticas a respeito da história oral ao mesmo tempo! Hahahahaha!
    Às vezes prefiro ler as coisas de acordo com a cronologia e com certas descrições e poucas lacunas, mas essas de fato não são características que se encontram muito numa narrativa oral.
    Beijos!
    Nati

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