10 junho 2015

Biografias

Vidas não são obras de ficção. Encontros promissores nem sempre se transformam em amizade e idéias potencialmente ricas às vezes não levam a parte alguma. Pessoas e preocupações importantes entram em nossas vidas e em nosso pensamento cedo e tarde, durante período de tempos diversos, e depois desaparecem para nunca mais voltar. Embora retrospectivamente possamos rastrear nossas linhas causais entre os eventos e enxergar vínculos diretos entre pensamentos, ao fazê-lo podemos interpretar mal as conexões existentes entre eles. Nosso empenho em dar uma seqüência coerente aos eventos é facilmente subestimado. Negligenciando o papel dos fatores contingentes que não necessariamente poderiam ter acontecido, limitamo-nos a imaginar o produto acabado, com a exclusão de outros igualmente possíveis. As idéias que aparecem antecipar outras poderiam, na verdade, ter tomado outra direção e, ao longo do tempo, semelhanças aparentes podem atestar pouco mais do que hábitos de pensamentos característicos. As memórias e biografias tendem obsessivamente a excluir acidentes e a insistir em padrões, mas as vidas e as carreiras intelectuais, segundo Bakhtin, não o fazem. Elas são prodigas, produzindo não só realizações diversas mas também potenciais não-realizados ou apenas parcialmente realizados. (MORSON, 2008, p. 21)

O que difere um texto tido exclusivamente como ficcional de um texto biográfico ou autobiográfico? Será mesmo que essas diferenças sobrevivem a uma melhor atenção da composição do texto escrito?

A princípio poderíamos separá-los em dois lados: 1. Biografias tratam da vida de pessoas que existiram “de verdade” e 2. Textos ficcionais abordam sobre coisas criadas, sobre pessoas que não existiram/existem. Todavia, essa distinção entre os textos não se sustenta, quando nos deparamos com biografias ficcionais, estejam elas trazendo personagens reais em situações inventadas, ou pessoas criadas em ambientes e momentos reais.

Essa é apenas uma fissura em uma questão muito maior e que se refere ao texto, à escritura, que é a de que todo texto é uma criação. Não necessariamente essa criação precisa ser ficcional, do modo como comumente entendemos a ficção, mas do jeito que, ao narrar qualquer fato, seja ele factual, verdadeiro ou imaginado, criado, estamos organizando as situações de acordo com uma perspectiva muito pessoal, ou seja, pautada por nossa expressividade.

Assim, no que se refere aos textos biográficos ou autobiográficos, a sua construção será pautada por acontecimentos reais e, em sua maioria, por pessoas concretas, mas será permeada de situações que não podem ser confirmadas absolutamente por todos, já que cada um, ao contar o mesmo acontecimento, o fará de sua perspectiva, colaborando, no máximo, para que um panorama situacional seja construído.

Montar tal panorama também implica em criar uma forma em que os fatos narrados de memória ou por expedientes que resgatam o passado sejam organizados, afinal, a história precisa de uma determinada estrutura para ser contada. Deve haver conexões entre as situações e o modo como elas são encadeadas, e essas amarrações estão relacionadas a um processo de criação, de pensar sobre aquilo que já aconteceu e dar-lhe sentido.

Uma biografia ou autobiografia não está apenas relacionada a descrever fatos, de acordo como o escritor percebe o seu acontecimento, mas dar sentidos e estabelecer conexões entre tais eventos, criando assim uma representação da vida, pois, biografias e autobiografias são apenas uma amostra resumida de todos os acontecimentos e suas implicações na vida do biografado e das pessoas que conviveram com ele direta e indiretamente, afinal, nem mesmo em obras ficcionais “de fato”, damos conta de dizer todos os acontecimentos da vida da personagem, cabendo assim ao autor escolher o que deverá ser contado e como isso se dará.

[...] descrições situam-se na fronteira entre a vida e o culto ou o mito de uma vida. Ou seja, eles se baseiam não no que uma pessoa disse ou fez, mas no que os outros agora dizem ou lembram a respeito dela, na melhor das hipóteses refratado através da memória do que um homem escreveu e, na pior, moldado pela necessidade de heróis culturais de um dado tipo. (MORSON, 2008, p. 22)

Destarte, devemos encarar tais textos não como “historiográficos”, mas uma versão, algo como “baseado em”.

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Referência:

MORSON, G. S. Mikhail Bakhtin: criação de uma prosaística. tradução de Antonio de Pádua Danesi. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.

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