08 junho 2015

A Torre acima do véu, Roberta Spindler

Imaginem um mundo devastado por uma névoa estranha. Venenosa. Uma humanidade que resiste sobrevivendo em altos edifícios, inaugurando uma nova era, uma Nova Superfície, que é governada pela Torre, entidade que controla “todas” as informações, tecnologia e qualquer outro recurso desse novo mundo. Esse é o mundo de A Torre acima do véu, romance distópico da escritora paraense Roberta Spindler.

Na Nova Superfície, os humanos vivem em condições de penúria, alimentando-se de rações sintéticas, com um quase nada de tecnologia em edifícios que mais parecem cortiços. Todos sob a vigilância constante da Torre, que ao garantir a segurança dos habitantes de Rio-Aires, cidade onde se dá os eventos do romance, exige obediência cega. Quem não segue a Torre é excluído para as zonas mais periféricas e baixas (próximas do véu), perdendo também assim, garantia de segurança e qualquer auxílio.

A história gira em torno de Beca e sua família, composta por Lion, seu pai adotivo e ex-mergulhador (aqueles que fazem investidas abaixo do véu), e seu irmão adotivo, Eduardo, que opera como o especialista em hackeamento. Juntos eles trabalham na própria empresa de entregas de encomendas. Beca é uma saltadora, habilidade, de algumas, que surgiram em alguns humanos, depois do efeito da névoa, como uma mutação genética que aumenta ou dá alguma habilidade específica.

Depois de uma entrega em que várias coisas dão errado, as coisas degringolam ao ponto de, numa missão seguinte, Eduardo cair no véu. Passado um tempo, Rato, um informante da família, lhes diz que Edu vive e que sabe onde ele se encontra. Assim, com ajuda da Torre, uma expedição é enviada para a velha superfície. A primeira missão de resgate abaixo do véu.

É nessa missão que muitos dos segredos que ainda ficaram encobertos vão se desvelando, não só em relação à posição das personagens, mas de toda a situação da humanidade, nesses 50 e poucos anos pós-véu. Os motivos, as causas que levaram à humanidade a esse modo de vida precário.

Eu não sou um leitor de distopias e nem de ficção-científica. Comprei o livro de Roberta durante a Feira Pan-Amazônica do Livro, que terminou ontem. Comprei diretamente coma autora, que estava no estande da Giz Editorial, que publicou o livro, e aproveitei pra ter uma conversinha rápida sobre o romance e, claro, tê-lo autografado.

Eu gostei bastante da ideia geral de uma distopia que acontece no Brasil e, principalmente, que envolve a América-Latina, até por nosso ambiente político ser um ambiente com possibilidade de criação de um cenário muito rico em relação ao distópico.

Há, em alguns momentos da narrativa uma “Transmissão”, seção na qual o líder da Torre, Emir, manda atualizações sobre o que tem acontecendo na Nova Superfície e, na qual ele aproveita para inculcar nas pessoas a imagem de benevolência da Torre, ao mesmo tempo em que faz discursos de repressão.

A condução do enredo também me agradou n que se refere ao tempo em que as coisas acontecem, sem adiantar ou retardar situações, o que poderia cansar o leitor por uma rapidez ou tédio pela demora, sem causar uma sensação de inadequação.

Porém, incomodou um pouco o estilo de construção sintática, em alguns pontos, de Roberta. Digo de estilo, pois com o passar da leitura, percebi que não era, como a princípio poderia se supor, uma escrita artificial, mas um modo de escrita que se sustenta do início ao fim da narrativa. De certo modo, esse estilo também pode ser percebido o ter contato com Roberta, seja pelo seu canal literário ou por conversas presenciais, mesmo que rápidas. Ainda assim, isso me travou um pouco em alguns momentos da leitura. Todavia, acredito que isso seja mais uma questão de costume, não só em relação ao estilo da autora como no tipo de gênero romanesco em que o seu texto se encontra, o qual eu também não tenho muita intimidade.

Há, ainda, uma ou outra questão no que diz respeito  linguagem que uma nova revisão textual dá conta de resolver. Em alguns momentos muito pontuais pareceu que s construções deveriam estar em outro tempo pretérito, além de ter alguns problemas no que se refere à diagramação de alguns parágrafos. Coisas bem técnicas, que num contexto mais geral, não chegam a prejudicar a leitura do texto, muito embora, a meu ver, não permitem que o texto alcance a excelência merecida.

Bom, mas isso tudo poderá ser resolvido na nova edição que está sendo preparada de A Torre acima do véu. Há boatos de que a capa será totalmente diferente e feita por um desenhista paraense. Será que vem em capa dura?

No mais, achei algumas sacadas de nomes muito legais, bem como o final, que deixa Roberta com umas boas possibilidades de caminhos para a Nova Superfície e o destino da humanidade.


A Torre acima do véu é um publicação da Giz Editorial. Um livro que deixa um gosto de quero mais, no final.

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