21 maio 2015

Vamos tirar a poesia do Olimpo?

Por Isabelle Pantoja*


O que distingue a poesia de épocas diferentes? O que define sua singularidade para ser mais ou menos lida? Pensava eu, enquanto participava de um curso de editoração em que foi suscitada a seguinte questão: “Poesia não vende?”. E uma moça ao meu lado imediatamente concluiu com uma resposta e um por que:

“Poesia não vende, pois a sociedade anda muito superficial, preocupada com assuntos mais efêmeros e sem tempo para a profundidade que uma leitura de poesia exige”.

Claro que nessa pergunta, indiretamente, estamos pensando na poesia enquanto leitura de entretenimento. Então, fiquei pensando na assertiva da moça, a poesia não vende por esse motivo? Será?!

Sei que a poesia de cada época está relacionada aos costumes e forma como ela (a poesia) fica impressa na memória, assim, acredito que o grande entrave dela, atualmente, é a forma que ficou guardada na memória da maioria das pessoas: uma arte erudita! A começar pelo primeiro contato do leitor com a poesia que, na maioria das vezes, se dá no ambiente escolar. O que não seria um problema, não fosse a maneira historiográfica que a poesia é ensinada nas escolas, (Podemos fazer um post só sobre isso!) e que acaba fazendo com que ela seja lembrada por escolas literárias, autores canônicos, e todo aquela blá blá blá que ao invés de conquistar, acaba afastando o leitor e impondo uma distancia às vezes sem volta.

O que dá pra perceber é que poesia acabou virando literatura para intelectuais (ou diria pseudointelectuais?)! E aqui encontro a linha de pensamento que dá força ao discurso daquela moça: acredita-se que ler poesia requer uma preparação, um estado de espírito, quase um ritual. Mas eu pergunto: Quem disse isso?!

Na verdade, podemos pensar que os poemas são como deuses olímpicos, estão lá aparentemente inalcançáveis por sua condição divina, mas não se deve esquecer que têm forma, costumes e sentimentos como nós, meros mortais.

Por isso, penso, a maioria dos leitores acredita que é melhor não comprar um livro de poesia, “porque não vai entender nada”. Talvez se os próprios leitores, poetas, críticos e todos que gostam dessa arte tentasse desmistificar o ato de ler poesia, sua leitura fosse mais abrangente.

Os leitores de romance, por exemplo, geralmente buscam uma história que os envolva, que os transporte para outra realidade. Se eles se permitirem, em um livro de poesia há muito mais que uma única história. E diferente de como ficou consagrada, a poesia não é uma deusa cheia de pompa e mistérios.

Claro que esse cenário, de certa forma, vem sendo transformado; como lemos aqui no Folhetim, no post “O ano poético de 2013” em que houve uma “febre poética” e até poeta virando best-seller.

Sim, tivemos um gás para poesia! Porém, ainda estamos longe de ver a poesia ser lida por um grande número de pessoas, como os outros gêneros que não têm, principalmente, como carro-chefe em seus volumes, sucessos póstumos.

A verdade é que para quem aceita a aproximação com a poesia, ela torna-se uma viagem de descoberta, revelação de um gênero literário mal interpretado.


Até mesmo passeando pelas prateleiras de uma livraria, é possível ter um momento de intimidade com um poeta, e ser laçado por um poema despretensioso num livro perdido. Então, porque não tirar a poesia do Olimpo? E permitir acabar com as formalidades que foram, infelizmente, impostas para sua leitura.




Isabelle Pantoja

Formada pela Universidade do Estado do Pará em Licenciatura em Letras, especialista em Análise literária pela Universidade da Amazônia. Apaixonada por poesia, café e gatos.

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