13 maio 2015

Fetiche literário: o respeito pelas práticas alheias

Fe.ti.che s.m. 1 objeto a que se atribui poder mágico 2 PSC objeto ou parte do corpo considerada possuidora de qualidades eróticas.
Fe.ti.chis.mo s.m. 1 culto ou veneração de fetiche 2 PSC deslocamento do interesse sexual para algum objeto ou parte do corpo usualmente desprovidos de conotação erótica ~ fetichista adj.2g.s.2g.

Os termos acima definidos pelo dicionário Houaiss dão conta de uma característica humana que dá a objetos e partes do corpo o poder de dar prazer, daí a referência a conotação erótica, que não necessariamente está vinculada a conotação sexual.

No universo da literatura temos um bocado de fetiches, que vão desde ao autor e o status dele ser Literatura e/ou Arte até a crítica literária, o modo de realiza-la, nos canais literários, como temos visto nas mudanças que o Cabine Literária passou.

Toda e qualquer mudança ou mesmo uma perspectiva diferente sobre o objeto do fetiche, causa incomodo e incomoda que o digam escritores que resolvem trabalhar em universos com os quais não fizeram o nome.

E é sobre o fetiche e esse incômodo que vamos falar hoje, mas não no que se refere ao autor, ao que é literatura ou sobre a crítica, mas sobre o objeto físico que é o livro impresso.

Antes de qualquer coisa, o livro é um objeto de consumo, como qualquer outra coisa e que adquire certo status em nossa sociedade letrada. Por mais que você não seja um grande leitor, ou que você nem leia, a imagem de uma estante em casa cheia de livros é algo que sempre faz boa figura.

Ter livros garante a imagem de certo status social não promovido pela questão econômica, embora com isso esteja relacionada, mas mais intelectual.

Com isso, ter livros na estante, vem a questão de edições bonitas, geralmente em capa dura, papel de qualidade e todas outras características físicas que fazem dessas edições “de luxo”.

E não há nenhum problema em querer ter edições de luxo simplesmente por acha-las bonitas, como parece ter sido o caso de uns dias atrás uma vlogueira ter falado sobre uma edição por ela adquirida de Alice no País das maravilhas.

Digo isso também em defesa própria, afinal tenho algumas edições compradas por serem lindas e ainda mais de livros que eu já tenho na estante, isso se chama “bibliomania”, que está relacionada à “bibliofilia”, ou seja, aquelas pessoas que gostam de colecionar livros, principalmente edições raras, como diz o Houaiss, mas que também pode se estender a outras características.

Por exemplo, eu além de edições de luxo, gosto de edições antigas de sebo e coleciono edições do livro “As relações perigosas”. Coleciono e não vejo nenhum problema nisso. Aliás, acho muito mais sincero dizer que aqueles livros foram comprados para se ter, e a maioria eu já li em edições de bolso ou comuns, do que comprar livros a rodo e não lê-los e ir deixando-os na estante. Por que, afinal, não tem muita diferença, né?

O argumento que se usa para o absurdo de se colecionar livros, livros bonitos, é o de não lê-los, mas quem compra livros e não os lê, comprou pra quê?

Ok. Há a intenção de ler o livro, mas no fim ele não é lido e fica de enfeite na estante, por que eu duvido muito que esses livros não-lidos seja doados, em sua maioria.

No mais, essa vinculação direta de livro, leitura e literatura é ainda algo que deve ser trabalhado e transposto, desconstruído. A literatura não precisa necessariamente do objeto livro, embora em nossa sociedade vinculada ao papel e a letra e agora aos dados isso seja o mais comum, do mesmo modo que as práticas de leitura não precisam de livros ou mesmo de textos escritos.

Também é preciso respeitar o direito do outro, ficar revoltado porque alguém resolveu comprar um livro pra ficar na estante e sair apontando o dedo dizendo que isso é um absurdo é desrespeitar o outro, é a mesma coisa que dizer que o que você lê é bobagem, como o fez Ruth Rocha sobre os livros do Harry Potter e que tenho certeza que deixou muita gente indignada.


O movimento é o de se dizer que essa prática não está de acordo com a sua, mas não de dizer que tal está errada ou é absurda.

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