11 maio 2015

Escuridão total sem estrelas, Stephen King

O novo livro de Stephen King, Escuridão total sem estrelas, publicado recentemente pela Objetiva/Suma das Letras, traz quatro contos que se propõe a contar histórias em que pessoas comuns caem na mais completa escuridão, desencadeando as mais variadas possibilidades comportamentais, todas evidenciando aspectos desconhecidos das personagens.

É assim que, nos quatro contos do livro – 1922, Gigante do volante, Extensão justa e Bom casamento – as personagens vão descobrindo outras personas dentro de si. Outros eus. E, à medida que isso vai acontecendo, fica impossível voltar atrás.

Em 1922, o marido e filho matam a esposa/mãe, para não serem obrigados a vender a fazenda onde moram e se mudarem para o centro urbano. A morte da esposa/mãe desencadeia uma série de eventos, degringolando todas as medidas que um assassinato pode acarretar e têm que ser tomadas a fim de que não seja descoberto.

Mas sempre há a consciência, que, geralmente, nos afoga em sentimentos como remorso, culpa ou sentimento de perseguição, como já vimos anteriormente em Crime e Castigo, de Dostoievski.

O conto também é um prenúncio, de bastante mau agouro, sobre os problemas econômicos dos anos seguintes, como o narrador aponta em suas considerações sobre os acontecimentos daquele ano e dos subsequentes.

Aliás, sobre o narrador, me pareceu muito estranho o modo como King termina o seu conto, pela impossibilidade das informações que nos são dadas aparecerem por meio de qualquer outro, que não aquele que, dentro da estrutura narrativa e não o autor, nos conta a história.

Sobre o enredo, me lembrou das Crianças do milharal (ou Crianças do milho, conto que deu origem ao filme Colheita Maldita), no que se refere um pouco a ambientação e, a presença dos ratos, me fez lembrar da possível existência de um conto dele sobre isso, embora eu nem tenha muita certeza, já que nem sou um grande leitor de King.

Gigante do volante fala de uma situação extrema que uma escritora de livros policiais, como vovós detetives, passa e em como ela dá conta da situação de abuso que sofre, contando com a ajuda inesperada de outra mulher no fim. Algo como vingança (ou justiça).

Já em Extensão justa, a inveja de um doente em estágio terminal do seu melhor amigo e uma proposta indecorosa de um vendedor ambulante de beira de estrada, nos levam ao famoso “pacto com o diabo”, que diz não estar em busca de almas, pois essas, segundo ele, se tornaram sem valor, além de contratos como esse não darem muito certo.

Sobre contratos que não dão muito certo e mesmo essa maneira meio despretensiosa da aparição do Diabo, bem como a necessidade de algo acontecer a outra pessoa, para que a barganha tenha efeito, haja vista que precisa-se manter o equilíbrio das coisas, me lembrou o conto O mandarim, de Eça de Queirós, respeitando, claro, todas especificidades do enredo e estilo de cada um dos autores, que são bem distintas.

E por fim, Bom casamento, em que a esposa descobre que seu marido é um Serial Killer e tem que decidir o que fará. Tudo fica mais complicado porque o marido descobre que ela sabe, mas não age da maneira como um assassino ou criminoso qualquer agiria, ou seja, tentando eliminá-la.

Essa parte me lembrou de uma das temporadas de Dexter, ou pelo menos duas, a primeira que me veio a mente é a de Trindade e o exemplo que ele deu ao Dex sobre conseguir manter uma família. A outra temporada é uma das últimas, em envolve tanto o fato de Debra descobrir o que o irmão faz, como com a ex-namorada de Dex, aquela que matava com veneno de planta, como se a Poison Ivy fosse.

Mas, o que mais em comum poderiam ter esses textos, que não as situações extremas que essas personagens passam e que as levam a cometer atos por nós, talvez, condenáveis?

Dois contos parecem contar a história americana, e são 1922 e Extensão justa. O primeiro, como dito anteriormente, sobre fatos que levam a crise de 1929; o segundo, sobre fatos aleatórios de celebridades e outras pessoas famosas, que ficaram em evidência na mídia na primeira década dos anos 2000.

Os quatro parecem ter uma gradação, no que se refere ao terror psicológico e o final das personagens, numa escala que decresce, chegando mesmo a termos finais “felizes” e bem irônicos.

Contudo, o fio que interliga essas estórias, deixando um pouco de lado o que aqui já foi dito, é o modo pelo qual a imagem da mulher e proposta, todas de uma maneira muito machista.

No primeiro conto, a esposa/mãe assassinada não corresponde ao ideal de mulher do início dos novecentos, em uma região isolada dos E.U.A., que a de mulher submissa e decorosa. No segundo, a ideia que se pode fazer qualquer coisa com uma mulher a beira de uma estrada erma. Enquanto no terceiro, o sentimento de posse que o namorado tinha pela menina, que não dava pra ele, mas o deixou pelo melhor amigo, de quem logo ficou grávida, desencadeia todo o ódio, que leva a barganha com o diabo ser efetivada. Por fim, o ego do homem machucado por ser ignorado pelas “mulheres esnobes”, que os tentam, de acordo com a perspectiva deles, com roupas curtas e decotadas, sorrisos sedutores e implícitos de “eu sei que eu sou gostosa e que você me quer, mas, ó, nunca vai ter”, é motivo para que elas sejam punidas.

Ou seja, a mulher é vista como uma propriedade do homem, que deve realizar todas as suas vontades, estar à disposição e nunca reclamar.


King ainda escreve um posfácio falando um pouco sobre a sua escrita, os contos e de como as ideias para eles surgiram, ressaltando o que aqui foi dito no início do texto, sobre o comportamento de pessoas comuns frente situações em que elas não conseguem visualizar uma nesga de esperança que seja, e, ao fazê-lo, lança uma luz no que há de sombrio da nossa sociedade, principalmente, quando penso sob a perspectiva da imagem discursiva construída sobre a mulher.

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2 comentários:

  1. Dan, me interessou muito depois de ler sua resenha! Como já te disse, King não é um autor que eu vá atrás para ler, mas me despertou a curiosidade.
    Gosto muito de contos e também de narrativas psicológicas e, pelo jeito, este livro nos apresenta ambos.
    E a observação sobre o papel feminino foi interessante, ótimo para ser discutido. Quero ler para falar melhor sobre isso.
    Beijos!
    Nati

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    Respostas
    1. Então, eu vou atrás porque o pessoal fica "ó, meu deus, o King é excelente!" e eu curto terror, suspense e psicológicos, embora deteste personagens com remorso. Hahahaha.
      Acho que contos também sempre são um jeito bacana de ir conhecendo o autor e se acostumando com ele. Esse livro em particular me atraiu bastante, ainda mais que eu sou um decepcionado com o King.
      Sobre o papel feminino, foi um clic que me deu já no segundo conto, mas que ficou muito evidente no último, daí achei melhor comentar. Se você for ler mesmo, quando terminar a gente pode conversar.
      Bjo, Nati.
      Dan.

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Ronrone à vontade.