05 maio 2015

E aí, é Literatura porquê? - O caso Ruth Rocha

Gostaria de começar esse texto com uma provocação:

A quem interessa estabelecer o que é Literatura e o que não é Literatura?

Recentemente, a escritora de livros infantis Ruth Rocha disse que livros como Harry Potter são bobagens, pois dentre outras coisas, abordam temas como bruxaria e que isso não seria bom para crianças.

Bom, vamos começar a desenrolar um pouco isso partindo da tradição.

Na tradição inglesa, há muita ocorrência de bruxaria, desde os contos populares alemães, coletados e depois “popularizados” pelos Irmãos Grimm, para a nova classe burguesa, sob o ideal de formação do Estado Nacional Alemão, por meio, também, da literatura; ou pelas novelas de cavalaria e Ciclo Arturiano. Há também em Harry Potter outras menções a tradição literária ocidental, greco-latina, nas inúmeras referências aos animais fantásticos que aparecem na trama, por exemplo.

Ou seja, as bobagens as quais Ruth Rocha se refere estão dentro de uma tradição, que vai muito além do imaginário britânico e europeu, mas de todo o ocidente.

Ainda sobre o que é escrito, o universo do qual J. K. fala é completamente diferente do qual Ruth Rocha fala. O lugar de escrita é outro, não só enquanto produção, mas também, sob certos aspectos, de público alvo. Mas não é isso que está em questão, ao dizer que o que o outro, que também é escritor, escreve bobagens, implicitamente eu quero dizer que a minha produção não o é. Uma espécie de auto-valorização pelo viés da desvalorização do outro.

Dizer que algo não é literatura é afirmar que outra coisa o é. É estabelecer parâmetros para o que é literário.

E pensar que, tudo o que produzimos hoje em dia, há muito tempo, antes do advento romance, nem seria considerado literatura. Por que sim, o romance, que hoje é uma forma literária consagrada, já foi considerado sub-gênero.

Na época do classicismo, vigorava a poesia épica, quando se tratava de narrativas. E elas não podiam ser escritas de qualquer forma, precisavam seguir o modelo proposto por Aristóteles, o modelo visto em Ilíada e Odisséia. Eneida e Lusíadas seguem esse modelo.

Aliás, a ideia de modelo era tão forte, que quanto mais parecido com o original, mais se mostrava o talento do escritor. Hoje isso seria considerado plágio, vejam só!

E o romance e sua proposta de escrita em prosa, que veio com a intenção de quebrar essas formas engessadas de se fazer literatura, acabou por ser mais um modelo e e foi estabelecido pra ele, não só formas, mas maneiras de se aplicar o conteúdo, de se trabalhar com a linguagem.

O rebelde de ontem se tornou o conservador de hoje.

A quem interessa dizer o que é literatura? Uma discussão tão rançosa, que muitos pesquisadores deixaram isso de lado, porque dizer o que ela é nada mais é que manter status quo ou alçar alguém a um pedestal.

Muitos buscam o que há de literário no texto. A literariedade de que nos fala a professora Márcia Abreu (UNICAMP), que são os traços que distinguem o texto literário do que não é literário.

Aliás, quem tiver interesse, há um livro dela pequenino, que dentre outras coisas, fala da formação do cânone, literatura e leitura e se chama “Cultura Letrada: literatura e leitura”.

Aliás, quando se fala em “mais vendidos” e os desmerecem com a alcunha de serem livros para se ganhar dinheiro, que não é arte, não há nada mais equivocado.

Arte e dinheiro sempre estiveram atrelados, fosse por meio da prática do Mecenato, que nos fez conhecer nos dias de hoje personagens como Da Vinci, Michelangelo ou mesmo Camões, porque até mesmo o poeta lusitano, dedicou a sua obra escrita durante dez anos de sua vida ao Rei e com isso ganhou uma pensãozinha pro resto da vida, queria ganhar uns trocados.

Lima Barreto e muitos outros reclamavam não conseguir viver do que escreviam e que, por causa disso, tinham que ter um emprego fixo. E vejam só, são literatura.

Em outros textos já mencionei que muitos dos nossos escritores canônicos foram sucesso de vendas em suas épocas.

Ou seja, se o desmerecimento de J. K. foi fazer sucesso, bem, que autor não quer ser lido e muito lido? Quem publica livros e não quer que eles sejam vendidos? A própria Ruth Rocha tem lá as suas boas vendas e teve livros adaptados para o teatro. Deve ter ganhado algum com isso.

Ou seja, parece-me que reside no estabelecer o que é literatura e o que não é literatura um resquício elitista e preconceituoso sobre o literário. E preconceitos literários não vendem livros e nem formam leitores críticos. Criam apenas pessoas chatas.

Pra finalizar, mais um questionamento, e que nos leva justamente a ideia de literatura como algo com traços literários em sua composição, textos que possuem literariedade.

Quem foi que disse ou estabeleceu que “cartas de viajantes do século XV e XVI", por exemplo, são literatura?

Porque, desde a escola e até na primeira disciplina de literatura de muitos cursos de Letras do país, o primeiro texto literário que vemos é “A Carta do descobrimento”, de autoria de Pero Vaz de Caminha.


Questiona-se textos que nos parecem ser muito mais literários, mas ninguém pensa em contestar as cartas de viajantes enquanto literatura, e olha que tem muita gente nas pós-graduações de Teoria Literária, por aí, estudando isso como texto literário. Mas e aí, é Literatura porquê?

2 comentários:

  1. Discussão super necessária e mais atual que nunca, Dan! Parabéns!
    Acabei de ver um vídeo do Cabine Literária (Tati Leite), EXATAMENTE sobre isso, vc já viu?
    A posição dela, e também a minha, é de que todos esses casos citados (Harry Potter, livros da Ruth Rocha, best-sellers, etc.) SÃO literatura. Agora, se vc considera que são literatura de qualidade ou não, é outra discussão.
    Concordo que a questão fica mais complexa academicamente falando: as cartas foram um bom lembrete disso. Mas, como vc mesmo disse, simplesmente "jogar" que HP não é literatura é um desserviço para o hábito da leitura, ainda mais vindo de uma autora tão importante no país. Dissemina preconceito.
    Beijos!

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    1. Ainda nem vi o video da Tati, Natasha. =p
      Enfim, vou contar uma historinha. Estava eu em um evento aqui em Belém, e quem falava era a professora Marcia Abreu (do livro que indiquei na postagem), ao fim da palestra sobre formação de bibliotecas no Brasil, ela foi questionada sobre a definição de literatura. Ela disse que, se você acha que determinado texto é literatura, então é. Simples assim. Mas, prestando bem atenção, ela não deu uma definição do que é Literatura, e sim, a meu ver, que isso de saber o que ela é, não tem lá muito porquê. rs

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Ronrone à vontade.