06 maio 2015

Cartografias literárias

Fonte da imagem: turma da profa. janete
No texto que escrevi sobre os futuros clássicos da literatura e as histórias literárias, pareceu, ao menos para mim, que o caminho a ser seguido não é muito promissor, tendo em vista que, cada vez mais, questionam-se os motivos que levam determinado autor, e não outro, pertencerem ao cânone, o volume crescente de obras no mercado editorial, que tem crescido em proporções exponenciais, haja vista que tal aumento de obras, demanda novas iniciativas de publicação, pois as grandes editoras não conseguem abarcar tudo o que se tem produzido.

Deste modo, percebe-se que se tem vivido um movimento de descentralização, ainda que tímida, já que nos currículos, não só escolares como acadêmicos, a velha estrutura de instituição de um cânone por uma perspectiva de nação e de período conformando assim histórias literárias que tentam unificar todos a um mesmo “sentimento patriótico”, sendo o mesmo que norteia as histórias literárias regionais, e ambas tornam-se produtos de uma máquina de exclusão. E tal exclusão, não se dá somente no âmbito literário, mas político, pois é fruto de um processo excludente maior, que tem como base a relação Capital e Províncias.

Mas será que é possível uma alternativa para esse modelo de exclusão?

Professora Camila do Valle (UFRRJ)
É sobre essa reflexão, que a professora Camila do Valle se debruçou, ao discutir no texto “Literatura da Amazônia – dificuldades do surgimento e classificação de um campo”, de sua autoria, que foi publicado na Revista Pluriel, nº9, durante o 3º Simpósio de Literatura Paraense, realizado na UFPA, no final do mês de maio de 2013.

A discussão tem início com o questionamento de Franco Moretti: “Servem os mapas literários?”.

Pensar em mapas é pensar em um movimento de criação de novas linhas delimitadoras do literário, para além das fronteiras geográficas, de nação ou região. É propor novas fronteiras onde o que se torna premente na construção desses mapas não é um sentimento nacionalista, universal, de pertencimento a uma estética literária, mas das filiações temáticas que as obras revelam ter entre si.

Assim, nada impediria de uma obra escrita em português ser vinculada a uma tradição africana, que se relaciona com outra obra escrita em francês.

Tal correlação, proposta pela professora, como alternativa as histórias literárias e o cânone verticalizante, é inovadora pela abrangência e força política que suscita, muito embora na própria academia isso já seja feito no âmbito literário de filiação, de modo muito tímido e espaçado, pois há trabalhos que pensam obras de espaços, tempos e línguas distintas como próximas, formando assim filiações temáticas.

Esse viés de perceber o movimento das obras dentro da literatura nos permite uma flexibilidade e uma abrangência de conhecer novos autores e inserir ou retirar, de acordo com as necessidades do que está sendo proposto naquele momento.

Deste modo, rompe-se essa relação de dominância e fronteiras fixas nacionalistas e universais de compilações, já que histórias literárias são nada mais que isso, portanto cheias de lacunas e incoerências, no que se refere, algumas vezes, a localização de determinados autores em movimentos que não dão conta de suas obras e a relação que se estabelece com as outras obras produzidas por outros autores colocados sob a mesma égide literária.

Sendo assim, em um movimento cartográfico, as histórias da literatura e mesmo os conceitos de clássicos seriam destituídos de sua condição de primazia, tornando os conhecimentos e o imaginário acerca o literário e tudo o que a ele se refere, plural.

Texto da Professora Camila do Valle, publicado na Revista Pluriel, aqui.

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