18 maio 2015

A morte do gourmet, de Muriel Barbery

Acham que as crianças não sabem de nada. Dá vontade de perguntar se as pessoas grandes um dia foram crianças. (p. 72)

A morte do gourmet é o primeiro romance de Muriel Barbery, autora de A elegância do ouriço, ambos publicados pela Companhia das Letras. Nesse romance temos desenvolvido um episódio que será retomado de modo en passant, no romance posterior, a morte do crítico gastronômico Pierre Arthens. Ambos os romances se passam na Rue de Grenelle.

Pierre Arthens está para morrer, de acordo com o seu médico, Chabrot, lhe restam apenas 48h de vida e, nesse tempo algo lhe perturba, um sabor que ele não consegue definir qual é, e que talvez nem mesmo exista.

No decorrer das rememorações de seu trabalho como crítico, vamos desvendando os gostos e as impressões desse crítico, bem como as impressões e gostos que ele mesmo vai impregnando no palato das pessoas ao seu redor. Mas quem é Pierre Arthens?

A resposta pode variar de acordo com os personagens que vão dividindo com ele a função de narrador, nos capítulos que se intercalam entre as memórias do crítico e daquelas, porém, de modo geral, elas se convertem para um aspecto, algo que Arthens vai construindo em sua carreira, como uma espécie de máscara ou personagem:

Quando eu tomava posse da mesa, era como um monarca. Éramos os reis, os sóis daquelas poucas horas de festim que decidiriam o futuro deles, que desenhariam o horizonte, tragicamente perto ou deliciosamente longe e radioso, de suas esperanças de chefs. Eu entrava na sala como o cônsul entra na arena para ser aclamado, e ordenava que a festa começasse. Quem jamais provou o perfume inebriante do poder não consegue imaginar esse súbito jato de adrenalina que irradia pelo corpo inteiro, desencadeia a harmonia dos gestos, apaga qualquer cansaço, qualquer realidade que não se dobre à ordem de seu prazer, esse êxtase da força sem freio, quando já não há que combater mas apenas desfrutar daquilo que ganhamos, saboreando infinitamente a embriaguez de suscitar  o temor (Pierre Arthens, p. 09).

Assim, Arthens se vê, como um todo poderoso, alguém que criou e destruiu muitas carreiras com o poder de sua caneta, alguém impetuoso, frio. Detestável!

Contudo, um outro Pierre vai se desenhando, um que é pura simplicidade e vamos percebendo isso nas lembranças que vão vindo à tona no decorrer de sua busca pelo “Sabor”, como o prazer em comer torradas com manteiga nos EUA, ou as sardinhas grelhadas que seu avô fazia um vez por mês nas férias de verão, a refeição simples oferecida por estranhos, quando perdido ficou, certa vez, na busca por um Albergue gastronômico que lhe haviam indicado; no modo como tratava a sua governanta ou o seu gato, com uma deferência não demonstrada nem a própria esposa.

Percebemos assim que, há duas faces para a mesma personagem, que vai se constituindo no desvelar dessa dualidade, que não é anulante do sujeito, mas o constitui. Pierre é quem ele deve parecer ser, uma personagem de si mesmo.

Isso vai ficando claro em várias passagens, como a do uísque, mas principalmente no final, quando se descobre o sabor tão procurado. Algo que não esperaríamos do maior crítico gastronômico de França, mas que vai se anunciando desde o início desse périplo.

Anton Ego, Ratatouille. Fonte Google imagens.
Assim que comecei a ler o livro, a primeira imagem que me veio de Arthens foi a de Anton Ego, o crítico gastronômico da animação Ratatouille, ambos parecem ter o mesmo porte, a mesma verve impetuosa, do mesmo jeito que, ao fim da leitura do livro, a imagem de Anton não desaparece, mas se confirma, quando lembramos da cena em que ele prova o ratatouille com gosto de infância.

Para além dessas questões da narrativa, podemos por meio dela estabelecer alguns conceitos e ideias sobre o papel do crítico, sobre o seu ofício e a relação estabelecida com os de em torno.

Sobre o ofício, Arthens diz assim: 

Na salada, no forno, na ratatouille, coo geleia, grelhados, recheados, em conserva, cerejas, gordos e moles, verdes e ácidos, honrados com azeite, sal grosso, vinho, açúcar, pimenta, amassados, descascados, num molho, numa compota, peneirados, e até no sorvete: eu acreditava ter explorado todas as suas modalidades e, em mais de uma ocasião, ter penetrado no segredo deles, ao sabor das crônicas inspiradas pelos cardápios maiores. Que idiota, que tristeza... Inventei mistérios ali onde não os havia e para justificar um tanto um comércio um tanto lamentável. O que é escrever, mesmo que sejam crônicas suntuosas, se elas não dizem nada sobre a verdade, pouco preocupadas com o coração, enfeudadas que estão ao prazer de brilhar? (p. 45)

Ao mesmo tempo em que Arthens se lamenta pela pouca emoção pessoal, ele dá o conceito do seu ofício, o de, por meio de mecanismo estabelecidos previamente, medir, pesar os atributos de um bom prato. O mesmo poderia ser dito sobre qualquer outra modalidade crítica e, o que deveria ficar é justamente isso, uma perspectiva instituída mais por parâmetros, que são a medida daquilo que é posto à prova, do que pelas sensações.

Anton Ego provando o ratatouille e sendo transportado aos sabores
de sua infância. Fonte Google imagens.
É quando isso se quebra, que temos ainda mais a aproximação de Arthens com Ego, a prova de que crianças, no caso de Anton, e adolescentes, no de Pierre, sabem das coisas, pelo menos de algumas, mesmo que sejam só no que se refere aos prazeres sinestésicos de uma boa iguaria culinária.

Por fim, há quem possa achar a escrita de Muriel empolada, mesmo tendo lido anteriormente A elegância do ouriço, mas se engana quem pensa que isso é algo artificial, é um estilo e um traço mais cultural. Devemos lembrar que a proposta de escrita de Muriel não é a de temas e sem de sintaxe que se dedica ao público mais abrangente, de massa. Isso não é, como muitos talvez possam crer, esnobismo literário, mas o outro lado da moeda do mercado editorial. Também temos que levar em consideração os aspectos culturais. 

A morte do gourmet é um romance francês, um país que tem uma tradição literária e de crítica bem consolidada, com um público que também se diferencia culturalmente nos hábitos de leitura dos brasileiros.


É preciso considerar essas questões, para não cair em ideias rasas de “escrita que se quer erudita”, por exemplo. Até mesmo porque, a escrita de Muriel é fluida e deliciosa, nos levando não são as sensações que textos literários comumente nos levam, mas a questionamentos e racionalizações, tudo isso sem perder-se em aridez, mas crescendo em sintaxe que se quer, se não já é, poética.






Título A morte do gourmet
Título original Une gourmandise
Autora Muriel Barbery
Tradução Rosa Freire d'Aguiar
Selo Companhia das Letras
Páginas 128

2 comentários:

  1. Oiii, Dan!
    Gostei muito da resenha, e achei a história interessante! Nunca tinha ouvido falar nesta. Tenho aqui em casa "A elegância do ouriço" e quero ler logo, vamos ver se será possível... :P
    Estamos mesmo conectados pelo tema da comida, já que também li há pouco tempo "Uma história comestível da humanidade"! Hihihihi adorei a coincidência!
    Beijos!
    Nati

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    Respostas
    1. Nati! Então, a elegância é ótimo e esse também, rs, só que mais curtinho. Vi umas resenhas bem ruinzinhas sobre ele e achei super estranho, ainda mais porque as pessoas disseram ter lido a elegância, e ambos seguem a mesma linha. Tem o mesmo estilo. Eu gostei bastante. Coloca os livros dela na frente, rs.
      E sim, foi uma agradável surpresa o lance dos temas dos livros. =D
      bjo

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Ronrone à vontade.