27 abril 2015

Um urso chamado Paddington, de Michael Bond

Capa da 2ª edição brasileira,
publicada pela WMF Martins Fontes.
Um Urso chamado Paddington, de Michael Bond e publicado no Brasil pela Editora WMF Martins Fontes, conta como o urso do título do livro torna-se membro da família Brown, no número 32 dos Jardins de Windsor, em Londres.

Paddington é encontrado no meio da estação de Paddington, em Londres, pelo Sr. e Sra. Brown, quando estes vão buscar a filha Judy que está vindo do colégio interno, para passar as férias com os pais.

Enquanto ela não chega, o encontro com o urso se dá e eles travam um pequeno diálogo, onde ficamos sabendo que Paddington, que até então não tem esse nome, veio do longínquo Peru, após ser mandado por sua Tia Lucy em um bote salva-vidas para Londres, antes de ela ir morar em uma casa para ursos aposentados.

Ao resolverem ficar com o urso, os Brown lhe dão um nome, Paddington, já que o seu nome peruano lhes seria incompreensível.

Assim, Paddignton vai morar com os Brown e a viver as situações das mais inusitadas, pois, embora ele tenha boas noções de educação, não deixa de ser um urso e, muito provavelmente, “muito jovem”, daí que se mete nas maiores das enrascadas por não prestar muita atenção no que lhe dizem ou por interpretar as coisas muito ao pé da letra.

No entanto, parece que tudo no fim se volta a seu favor e ele se dá bem.

O livro é super agradável e de leitura rápida, ainda mais por ter um pouco menos que 150 páginas, contando com o posfácio assinado pelo autor. Porém, eu tenho algumas ressalvas sobre o livro e a composição da personagem Paddington.

Primeiro que, sobre ele, só ficamos sabendo que veio do Peru e que sua tia lhe ensinou tudo o que ele sabe, mas nada além disso. Nenhuma aventura dele no Peru ou no caminho para a Inglaterra nos é narrado. É como se ele tivesse nascido naquele momento e esse nascimento requeira um apagamento de sua identidade anterior. Esse apagamento não acontece totalmente, porque ainda existe no decorrer do livro menção à tia, nas cartas que ele lhe escreve sobre a suas aventuras em Londres.

Segundo que, Paddington parece ser um urso muito arraigado a questão monetária, sempre reclamando sobre ter que pagar as coisas e sobre o valor que lhe cobram por elas. Embora isso possa ser usado como um exemplo do que é justo no que se refere ao pagamento das coisas e o valor delas, também pode levar ao exemplo de uma espécie de avareza, que eu não sei se seria característico nem de um urso e muito menos de alguém vindo do Peru.

Não é exagero pensar esses questionamentos por ser um livro voltado para crianças, porque o livro em questão ajuda no processo de formação não só linguístico como ideológico dos pequenos. Assim, quando eles entram em contato com a história de um urso que veio do Peru, mas nada sobre esse lugar lhes é dito ou dado importância, pode leva-las a pensar que de fato isso não é importante, que o necessário é saber das aventuras em Londres. Que Londres é um lugar que pode oferecer oportunidades, seja do que for. Aliás, isso fica muito claro pra mim, por Paddington ter sido mandado para lá, quando da mudança de tia Lucy para o lar de ursos aposentados. Por que ele não poderia permanecer no Peru? Por que ele tinha que se mudar para Londres e só ficarmos sabendo das suas aventuras europeias?

Acho esses apontamentos pertinentes, quando discutimos alguma obra e sobre como podemos apresenta-las as crianças, para que elas simplesmente não encarem os livros como possibilidades que se fecham em si mesmas e que desenvolvam assim um olhar mais critico.
Claro que não se pede para fazermos esses questionamentos com elas, mas de propor conversas e mesmo a criação de outras histórias envolvendo as personagens em um outro espaço e sobre uma perspectiva menos “autorcentrica”.

No final do ano passado foi lançada uma adaptação cinematográfica das aventuras de Paddington, dirigido por Paul King.

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