06 abril 2015

Reze pelas mulheres roubadas, Jennifer Clement

Minha mãe disse: Reze para que seja um menino (p.237).


Se os títulos de resenhas não fossem o nome do livro que são objetos do texto, certamente, o título que eu daria a esta seria algo como: “Do porque precisamos do feminismo”, ou alguma coisa que caminhasse nesse sentido.

O romance de Jennifer Clement, fruto de mais dez anos de entrevistas com mulheres de todo o México, Reze pelas mulheres roubadas narra a história de cinco garotas nascidas na inóspita região de Guerrero. Obrigadas por suas mães a esconderem que são meninas, elas se enfeiam, crescem sujas e com os cabelos cortados curtos. No alto da montanha em que elas vivem nunca nascem meninas, só meninos. Lá, o salão de beleza, serve para enfear.

[32] Imaginem, Ruth disse. Imaginem como é para mim. Eu abri este salão de beleza doze anos atrás e como foi que eu o chamei? Eu o chamei de A Ilusão. Eu o chamei assim porque a minha ilusão, ou o meu sonho, era fazer alguma coisa. [33] E queria fazer vocês todas ficarem bonitas e queria me cercar de cheiros doces.
[...]
O que aconteceu?
Ninguém respondeu.
Eu tenho que fazer com que as meninas pareçam ser meninos, tenho que deixar as meninas mais velhas com uma aparência bem simples, tenho que fazer com que meninas bonitas pareçam feias. Este é um salão de feiura, não um salão de beleza, Ruth disse.

Isso acontece pelo medo que as mulheres tem de terem as suas filhas roubadas pelos narcotraficantes e usadas como “amantes-escravas”, termo usado no romance para se referir as mulheres que servem tanto para satisfazer seus “donos” sexualmente como para realizar trabalhos de outra ordem.

Porém, se a princípio pensamos que a única coisa das quais essas mulheres são despojadas se referem ao direito de exercerem os símbolos da feminilidade ocidental, por medo de serem despojadas de sua liberdade, o que de certo modo já acontece por viverem se escondendo, vamos percebendo ao longo do romance que delas tudo é roubado.

Elas são roubadas do convívio de seus homens, que partem clandestinamente para os EUA, a fim de realizar o sonho americano. São roubadas no direito de terem atendimento médico, já que médicos não vão para sua região sem serem escoltados pelas forças armadas, já que teme ser sequestrados pelos narcotraficantes que podem querer usá-los para salvar algum criminoso ou como moeda de troca com o governo mexicano. Ainda no que se refere à saúde, isso lhes é roubado com o constante despejo de herbicida para as papoulas no povoado, pelo próprio governo de seu país. São expostas a AIDS por seus companheiros que, nas poucas vezes que voltam dos Estados Unidos, as infectam e descobrindo que elas contraíram a doença, as acusam de serem prostitutas, putas e vadias, lhes dão surras e depois as abandonam, elas e os filhos a própria sorte, sendo roubadas assim, também em sua dignidade. São roubadas no acesso a educação de qualidade, já que a escola não tem infra-estrutura adequada, os professores são sempre voluntários e mudam constantemente, isso quando permanecem o ano letivo inteiro; alguns nem se preocupar com o que deve ser ensinado, preocupa-se. O ensino só vai até o final do fundamental.

Roubadas de tudo, elas vão se tornando reflexo do lugar em que vivem, inóspito, uma selva cheia de formigas vermelhas e pretas, de iguanas, aranhas, serpentes e escorpiões albinos.

E ainda assim, em certo momento do romance, são questionadas por um dos professores que por lá passaram, José Rosa, como podem viver daquela forma, em casas com chão batido de terra, entre todos os insetos e animais. Como elas podem viver sem homens?

Um homem que questiona como elas vivem sem homens. Pensamento falocêntrico que não consegue se colocar no lugar do outro, que por não ter esse movimento não desenvolve a empatia, que olha o objeto de perto e não o compreende por que não o sente, não tem a perspectiva modificada. O professor não consegue perceber que elas não são as Amazonas, como a mãe da narradora, mãe de Ladydi, que escolheram ficar sem seus homens e que a situação que elas vivem é justamente por causa dos homens, dos que se ausentam e não dão apoio e dos que ausentes e sem a elas terem pertencido algum dia, dispõe da vida delas da maneira que bem entendem, ao ponto de poderem rouba-las de suas casas. E, “uma mulher desaparecida é apenas outra folha que corre pela sarjeta durante uma tempestade” (p. 71).

Depois de ser presa por um crime que não cometeu e do qual foi testemunha inconscientemente, Ladydi, também é roubada da liberdade, chamada de estúpida como todas as mulheres que só pensam em dinheiro, como lhe dizem no momento em que está sendo levada para o presídio da Cidade do México.

É no presídio que ela vai entrando em contato com a história de outras mulheres que, sofrendo abusos nas mãos dos homens de suas vidas. Uma matou o pai e diz que foi nesse momento, o em que ele morria, que ela ganhou o único abraço de sua vida vindo dele e, cinicamente diz que precisou mata-lo para ganhar um abraço. Ainda assim, todas sonham ou nutrem esperanças de que tudo fosse diferente, que pudessem ser amadas por um homem, que pudessem ser cuidadas, o que fica evidente na inveja e admiração de que sentem pela detenta Georgia, inglesa, que tem um pai que nunca a abandonou e que sempre lhe manda dinheiro e doces, por exemplo.

É lá que ela se confronta com outra verdade do destino das mulheres, principalmente, a do esquecimento, pois “Não há nada mais que se precise saber, ela disse. Ninguém visita as mulheres. Todo mundo visita os homens. O que mais precisamos saber a respeito do mundo?” (p. 228). O que mais se precisa saber que as mulheres são dispensáveis, objetos de baixo valor nesse mundo em que elas vivem, no mundo em que nós vivemos?

Sim, embora o romance seja ambientado no México, a redor do mundo mulheres vivem situações muito parecidas, seja por conta do abandono do Estado que não lhes assegura as condições de viverem em situações dignas, com leis que as protejam da violência ou por conta de dogmas religiosos que as submetem à vontade de um “deus” tirânico, que a pune com pelo pecado original, que as transformam em demônios que devem ser evitados.

Homens que exercendo esse poder o qual não tem direito, também pagam o seu quinhão, com as vinganças femininas, com o despojo de sua humanidade, com uma vida na qual tem que a todo momento provar que são machos, poderosos e melhores uns que outros, que não podem fraquejar.

Se eu tivesse que escolher um outro título para a resenha sobre Reze pelas mulheres roubadas, livro ganhador do Sara Curry Humanitarian Award e publicado no Brasil pela editora Rocco, seria algo como: “Do porque precisamos do feminismo”, ou alguma coisa que caminhasse nesse sentido.

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