08 abril 2015

Onde estão os nossos Manicongos* na literatura?

Há um tempo, quando eu comecei a escrever a coluna Estante, no site Os entendidos, passei a me dedicar mais a literatura homoerótica e homoafetiva, buscando para além das obras que eu já conhecia e as que por vezes buscava, me inteirar também de lançamentos para públicos que eu por hábito, muitas vezes ignorava, como os escritos para adolescentes.

Numa dessas descobertas literárias, deparei-me com o livro Menino de ouro, de Abigail Tartellin e publicado no Brasil pela Editora Globo. Na resenha que eu fiz sobre o livro, questionei na época a visibilidade dos intersexuais na busca por direitos à constituir-se como identidade e melhores tratamentos no que se refere a sua designação sexual em tratamentos médicos e de como eles, dentre as facetas de identidades de gênero e orientações sexuais, ainda são mais invisíveis que os mais invisíveis dos LGBTs.

Logo depois, descobri o livro de Jeffrey Eugenides, o Middlesex, publicado pela Companhia das Letras, que também narra a história de um intersexual e aí que a linha de raciocínio literário, enquanto produção, começou a ser redefinida. Dois livros de certo apelo apareciam falando daqueles que eu considerava mais invisíveis que outros invisíveis, mas a questão é que eu desconsiderava os lugares discursivos dessas invisibilidades.

Hermaphrodite endormi, Bernini, 1620, Louvre, Paris
Fonte da imagem: RMN archive

No Brasil, dentro das discussões sobre Identidade de Gênero, feminismo, Negritude e de antas minorias, não consigo dimensionar uma minoria constituída como Intersexuais ou que pelo menos façam parte enquanto grupo de algum outro grande grupo das minorias. A impressão que eu tenho é que não há discussão sobre isso, pelo menos não uma que tome o espaço público, da praça, dos botecos, como acontece com as outras minorias.

Sob esse aspecto, penso que eu ainda tenho razão, ao propor naquele texto que os intersexuais são um grupo dentro das identidades de gênero mais invisível que qualquer outro. Por outro lado, meu equívoco toma forma e consistência quando eu penso isso também na literatura ficcional.

Você pode me dizer que exagero quando pego uma quantidade de dois livros para garantir uma representatividade ou corporificação de uma identidade, trazendo-a assim para a visibilidade. Bom, se pensarmos no mercado editorial como um todo, duas publicações são a mesma coisa que nada, é certo. Mas, se começarmos a passar para os segmentos das publicações, elas vão tomando outras proporções.

O mercado para livros atuais com personagens LGBT começou a crescer, mais ou menos, a partir da publicação de O 3º Travesseiro, de Nelson Luis de Carvalho, pela Editora ARX em 1997. De lá para cá tivemos republicado o livro Eu sou uma lésbica, de Cassandra Rios pela Coleção Devassa da Editora Azougue e publicados os livros do David Levithan, pela Editora Record em seu selo Galera Record. E esses são apenas alguns exemplos e de editoras maiores ou com maior apelo editorial.

Lázaro Ramos como Madame Satã, no filme homônimo de 2002.
Fonte da Imagem: Revista Interlúdio
Dentre esses e sem levar em consideração alguns clássicos, quantos livros publicados trazem uma personagem como protagonista e que seja travesti ou transexual?

Nos novos, eu não consigo pensar em nenhum. Dos clássicos, eu consigo pensar em quatro que trabalham não necessariamente com a travestismo ou com a transexualidade, que são: A confissão de Lúcio, de Sá-Carneiro, que por ser um romance de vertente simbolista não nos deixa margem para afirmar que Ricardo se traveste de Marta, a fim de que possa manter um relacionamento sexual com Lúcio; Luzia-Homem, de Domingos Olímpio e vertente naturalista com forte pegada regionalista, aborda dentre outras questões os papéis de gênero, apresentando-nos Luzia, mulher que se “comporta” como se homem fosse no sertão brasileiro, isso lá nos idos de 1903; o conto Acauã, do também naturalista Inglês de Sousa em que há a questão dos papéis de gênero, e Orlando, de Virgínia Woolf, no qual Orlando um dia acorda e não é mais homem e sim uma mulher, e que penso ser apenas a materialização das mudanças ocorridas na Inglaterra tomando forma no corpo de uma personagem, ao passar dos séculos. Para além desses, há aqueles clássicos anteriores ao advento romance, e que se situam dentro das cosmogonias greco-latina, indianas, dentre outras.

A questão é que, primeiro nenhum desses romances abordam de fato a transexualidade, passam por ela no que se em de mais superficial, a questão de papéis de gênero. Segundo que, nos romances atuais e com isso incluo os romances e contos já a partir do século XIX, as poucas e raras vezes em que personagens assim aparecem, são como personagens marginalizadas, não só por sua posição menor que a de coadjuvante, e sim por serem violentas ou ridículas, debochadas e, por conseguinte, vítimas de escárnio.

Mesmo as personagens travestis de David Levithan caminham para o estereótipo do deboche. Sinceramente, parece-nos possível que haja personagens como aquelas? Que possamos aclamar sem questionar um autor que, ao se dedicar a escrever para meninos e meninas gays, a fim de emponderá-los (e claro, ganhar dinheiro em um nicho que tem crescido) desqualificar outras minorias?

Observando e questionando esses posicionamentos e produções literárias, chego a conclusão de que, no Brasil, embora as discussões Trans e o Transfeminismo estejam ganhando um maior destaque, principalmente em comparação com a luta dos Intersexuais, que existe pelo mundo afora, as pessoas Transexuais ainda carecem muito de espaço dentro da nossa literatura, não só por nós produzida mas por nós importada.

O cenário literário no Brasil parece que tomará esse caminho de desinvisibilização, ainda esse ano, com o anúncio da Editora Rocco de lançar até o final do ano o livro The art of being normal (título original), de Lisa Williamson. Que mais livros que testemunhem e emponderem os jovens transexuais e crie laços de compreensão e empatia por eles sejam trazidos para o público leitor.

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*Manicongo, de acordo com o livro “Entre a luxúria e o pudor: A história do sexo no Brasil”, de Paulo Sérgio do Carmo e publicado pela editora Octavo, foi um baiano do século XVI, escravo de um sapateiro, que “foi denunciado duas vezes , inclusive por um cativo dos jesuítas, por ‘usar o ofício de fêmea” nos coitos que mantinha com outros negros. Gostava de travestir-se, recusando usar a roupa masculina que lhe fornecia seu senhor, e preferia “trazer um pano cingido com as pontas por diante”, como o dos jimbandas do Congo. [...] Manicongo pode ser considerado como o primeiro “travesti” que se tem notícia no país [Brasil]” (pp. 54-5). Embora o relato de que Manicongo fizesse papel de “fêmea”, sabemos que, hoje, estar no papel de passivo durante o ato sexual nada tem a ver com o fato de travestir-se ou de ser transexual.

Um comentário:

  1. Dan, tema absolutamente NECESSÁRIO de ser mostrado!
    Sabemos que a exposição é o primeiro passo para a aceitação social; é uma pena que essa exposição, em geral, acarrete em discriminação e violência.
    Não sou leitora desse nicho, e tenho dificuldade de pensar em personagens gays, que dirá protagonistas gays, e muito menos transexuais!!! Gostei das suas indicações, tentarei prestar mais atenção nisso.
    A título de curiosidade, tem uma pesquisa mostrando algumas estatísticas da Literatura brasileira recente, quantos por cento dos autores e personagens são homens, mulheres, etc. Alguns desses "tipos" que vc citou sequer entram na estatística.
    https://redemunhando.wordpress.com/2014/05/07/estatisticas-da-literatura-brasileira/
    Belo texto, obrigada por postá-lo.
    Beijos,
    Natasha

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