01 abril 2015

O romance erótico-pornográfico no Brasil e a voz feminina

O texto sobre o romance Tampa, no qual questionamos, a partir dele, o papel ainda incipiente da voz e do desejo feminino enquanto possibilidade legítima de uma produção literária se propõe a discussão do porque negligenciamos não só a voz feminina, seus desejos, como a produção literária, em sua vertente erótica / pornográfica, por ela produzida no mercado editorial brasileiro. Quando aqui dizemos que a voz feminina é negligenciada, não se quer dizer que ela não exista, mas sim sobre a forma como ela é manifestada.

O ponto que creio devemos levar em consideração é o fato de ainda sermos, mesmo na literatura, uma sociedade culturalmente conservadora. Conservadorismo esse que cala não só a voz dessa produção literária erótica / pornográfica feminina, da qual falaremos mais adiante, como também ignora a produção de escritores canônicos.

Autores como Drummond sofrem nesse ponto. Sempre quando há que se falar do poeta mineiro, enfatiza-se, não só nas matérias e palestras, como no ensino, a sua produção social ou cotidiana, deixando-se de lado a sua veia erótica, publicada sob o título de Amor natural, publicado pela Companhia das Letras.
A LÍNGUA LAMBE

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

Poucas são as escritoras que desfrutam da liberdade de falar e publicar textos eróticos / pornográficos e serem reconhecidas por isso, no mercado editorial brasileiro. A maior referência que eu tenho é a de Hilda Hist, autora do livro O caderno rosa de Lory Lamby, que não só traz o sexo de forma explícita, sem deixar de ser “metáfora”, mas o faz pelo viés do fetiche do desejo sexual por uma criança, que não é nem mesmo uma Lolita.

Claro, há outros livros eróticos seja de escritores ou de escritoras, mas a maioria seguem um discurso sexual conservador e machista. Mesmo o famigerado O doce veneno do escorpião, da ex-garota de programa Bruna Surfistinha (pseudônimo de Rachel Pacheco) é de um conservadorismo e puritanismo que pouco poderíamos supor na escrita de alguém que se propôs a relatar as suas experiências sexuais. Para se ter uma ideia, nem mesmo há as palavras “pinto, pau e pênis” no livro. Todas as vezes que essas palavras têm que ser referidas, elas são feitas da seguinte forma “P”.

E os relatos sempre se mostram de modo a falar da satisfação do homem e de seus desejos. Mesmo o nosso Anjo Pornográfico, Nelson Rodrigues, tratava o desejo feminino como algo pecaminoso e conservador. Por exemplo, em Asfalto Selvagem, também conhecido como Engraçadinha, minha vida e meus amores, por conta da minissérie produzida pela Rede Globo, com Cláudia Raia e Alessandra Negrini; que tratam os desejos de Engraçadinha como fruto de todas as desgraças que acontecem em sua família. Engraçadinha é a perdição de sua família, assim como a sua filha vem a ser depois, levando-a a sublimar os desejos do corpo e se casar com Zózimo, um homem mais velho pelo qual ela não sente nenhum tesão.

Das publicações recentes nessa vertente literária, temos o Eu sou uma lésbica, de Cassandra Rios, que figura entre os três títulos da coleção Devassa, do Editorial Azougue, como também Patty Diphusa, de Pedro Almodovar.

Eu sou uma lésbica, do mesmo modo como O caderno rosa, aborda o sexo pelo viés do fetiche, das taras, dos desejos sexuais condenados pela sociedade e é o único reeditado  de Cassandra, que tem vários livros erótico-pornográficos, muitos até muito mais fortes em sua realização literária. Mas porque Cassandra, que foi um sucesso de vendas na época da Ditadura Militar e da qual obras foram adaptadas para o cinema, muito mais pornográfica e transgressora que nosso Nelson Rodrigues, não tem mais espaço em nosso mercado editorial, em um momento em que esse tipo de literatura ganhou um novo fôlego a partir do lançamento de 50 tons de cinza?

Podemos falar no desconhecimento em que a autora tenha caído, na sua falta de influência, diferentemente do Nelson, sempre bem relacionado em jornais, na Globo e mesmo entre os militares... Pode-se alegar até mesmo o estilo de escrita, um pouco mais pesada, tanto na escolha lexical como nas reflexões que se lança, muito psicológicas.

No entanto, acredito que a justificativa está no que eu escrevi lá no começo, conservadorismo e machismo, não só por ser uma escritora, mas pelos temas sexuais que trata, incesto, homossexualidade e vários outros fetiches e “taras”, de uma forma muito mais crua e explícita que Nelson Rodrigues.

Cassandra fala dos desejos da mulher, do ser humano de maneira franca, sem um romantismo ou idealização, embora com alguns “finais felizes”, do mesmo jeito que acontece em Tampa, de Alissa Nutting.

Isso me parece ser ainda mais veemente, no caso brasileiro, quando penso no romance Zonas úmidas. Embora o romance, como percebido em uma outra resenha nossa, esteja mais para o escatológico e grotesco do que para o pornográfico estritamente sexual, há o apelo de ser uma autora que obteve reconhecimento fora, que seja uma autora estrangeira. Ora, na capa da edição que analisamos há nada mais do que a indicação de quantos tantos exemplares da obra foram vendidos. Não é uma mera questão comercial, mas uma questão do local onde a obra foi produzida. O mercado ainda investe muito mais em autores de fora e em atores canônicos, no cenário brasileiro.

Romances como os de Cassandra, Nutting e Roche é algo que ainda vemos pouco dentro do  literário erótico-pornográfica, onde a maioria dos autores são homens e o principal arranjo é o de satisfazer os seus desejos ou das suas fantasias do que desperta nas mulheres.

Não desconsideramos aqui os eventos históricos que por décadas e mesmo séculos marginalizaram e excluíram as mulheres não somente da escrita literária como, principalmente, do universo da escrita, porém isso é justamente fruto de uma cultura que a subalterniza, a ela e ao que ele sente enquanto desejo, envolvendo-a tão somente em um invólucro sentimentais psíquicos e ligados a uma ideia construída socialmente sobre feminilidade e do que é ser mulher.

Por fim, não se quer defender tão somente o espaço de mulheres no meio literário de viés erótico-pornográfico, já que, como sabemos a distinção literária independe do sexo biológico, e sim defender uma abertura cada vez maior do discurso e da voz feminina, dos desejos dessa mulher. Uma mulher com buracos, hormônios, secreções, sentimentos e sensações; não uma mulher feia de gesso.

2 comentários:

  1. Olá, Dan!!!!!
    Gostei muito do seu texto! Literatura erótica não é minha praia, mas ouço falar bastante na Hilda Hilst. Vc me recomenda algum dela para começar?
    Drummond é maravilhoso, não interessa qual é sua temática; esse poema que vc escolheu está absolutamente fantástico!
    E esse post se encaixa super bem na discussão sobre mulheres na literatura (autoras principalmente) que estávamos tendo no Cabine Clube (facebook); com certeza o machismo e o conservadorismo brasileiros impedem mais autoras de falar sobre o tema, e também leitoras.
    Abraços!

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    1. Oi, Natasha. Confesso que da Hilda eu conheço muito pouco, mas super recomendo o "Caderno rosa". E eu adoro literatura erótica-pornográfica ou romances licenciosos. rs
      Obrigado pela visita.
      Abraços!

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Ronrone à vontade.