04 abril 2015

A elegância do ouriço, de Muriel Barbery

“Pois a Arte é a vida, mas num outro ritmo.” (p. 163)

Poucos são os livros que me tem feito sentir as coisas sobre as quais trata em sua leitura. Com isso, não quero dizer que os que não o fazem sejam livros ruins. São bons livros, alguns incríveis, mas que se atém ao narrar muito bem uma história, preocupando-se mais com os elementos literários da narrativa e/ou discussões sociais e políticas que podem ser suscitadas pelo que é contado. Assim, sua escrita não nos leva a outro patamar de construção linguística, das reflexões absurdamente irônicas que a todo o momento nos tira um sorriso do rosto, criando uma harmonia entre o linguístico, as personagens e o enredo que nos projeta para uma fuga do senso comum, da língua e do pensamento.

Antes de A elegância do ouriço, de Muriel Barbery, publicado no Brasil pela Companhia das Letras com tradução de Rosa Freire d’Aguiar, somente o O rei se inclina e mata, de Herta Müller, jogou-me contra um vórtice linguístico e reflexivo como o livro de Muriel.

Coincidência ou não, ambos foram descobertos por acaso. Se com Herta o conhecimento adveio de uma nota de revista e depois um encontro inesperado em uma livraria local, com Muriel deu-se por conta da adaptação do romance para o cinema L’herrison, o qual eu ainda não assisti, seguido de outro encontro casual na mesma livraria em que esbarrei em Herta.

Livro e filme apresentam a mesma sinopse e o receio que eu tinha de comprar o livro, por achar que ambos estivessem ligados às produções existencialistas francesas, já que a autora do romance é professora de Filosofia e há uma forte presença de valores acerca nobreza, arte, beleza e justiça, por exemplo, era bastante plausível.

Não poderia estar mais enganado. Na época em que comecei a ler “A elegância”, lia também outro título e iniciava um curso de curta duração pela manhã. Como o outro volume era muito grande, decidi que o livro de Muriel seria o meu companheiro nos dias de aula, enquanto esperava o professor chegar para a aula.

Fui conquistado já na primeira página, por conta da ironia situacional que nos apresenta Renée, também conhecida como Sra. Michel, a concierge de um prédio cheio de moradores ricos.

A Sra. Michel que lê Marx, gosta de cinema japonês, entende de pintura de natureza morta e gosta de música clássica esconde-se sob o estereótipo de parva que a sua condição social e de trabalho lhe conferem, vivendo assim uma vida dupla. É sob a perspectiva dessa mulher, mais inteligente que supõem os moradores do nº 07 da Rue de Grenelle, que as relações entre ricos e pobres é construída, desenrolando assim um jogo de hipocrisia e aparências que são desveladas.

Junto dela temos, intercalando a narrativa, os diários da caçula da família Josse, também moradora do prédio em que a Sra. Michel trabalha, que decidiu se suicidar e atear fogo no apartamento da família quando completar 12 anos. Primeiro temos somente o diário dos “pensamentos profundos” e depois é acrescentado o “diário do movimento do mundo”, completando assim a estrutura da narrativa e o movimento cíclico de comentários sobre esse pequeno universo que é o prédio do nº 07 da Rue de Grenelle.

Comentários esses que vão desde o encontro de dois donos de cachorros e seus respectivos bichos de estimação na entrada do edifício e o incidente que isso causa, na visita à matriarca da família Josse em uma casa de repouso e a chegada de um novo inquilino, após a morte de um dos moradores. Todos evocando valores e conceitos de perspectiva filosófica, como beleza, compaixão, velhice e felicidade; evidenciando assim que não é preciso de grandes atos, de heroísmos e epopeias épicas para que algo bonito e consistente seja construído. Mostra que a arte está na simplicidade de se fazer as coisas, filosofia japonesa. 

A elegância do ouriço, a elegância da Sra. Michel e da vida que nos parece tão dura e tediosa: “por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriço, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes” (p. 152); ou a beleza da flor de lótus, que nascida na lama, poderia ser tudo de mais repulsivo, mas ostenta uma beleza que não condiz com a realidade de seu entorno.

Por fim, não há nada que nos prepare para o final do livro e nada que nos prepare para o depois. Só a sensação de estarmos sós.

Uma obra-prima, sem dúvida.

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