02 março 2015

Zonas úmidas, romance alemão

 Fonte da imagem: Google
Zonas úmidas, romance alemão de Charlotte Roche, publicado em 2010 no Brasil pela Editora Objetiva por meio de seu selo Ponto de leitura, é considerado, como fica explicito em sua quarta capa, um livro sobre o prazer. Um livro erótico, que “nos força a redefinir a sexualidade feminina e a repensar a relação com o nosso corpo e suas funções”, de acordo com o National Post Canada.

Deixando de lado a adjetivação do livro enquanto erótico, no que se refere as questões sexuais que mexem com a nossa libido, concordo com a colocação do periódico canadense, embora ainda considere que essa é apenas uma parte do todo que é o romance.

Zonas úmidas nos apresenta Helen, uma garota com seus recém-completados 18 anos. Conhecemo-la já no hospital para uma cirurgia no cu, devido a uma fissura anal ocasionada por um erro na hora de raspar os pelos da região.

Um assunto grotesco que caminha para o escatológico, que pouco nos deixa a vontade, sendo justamente sobre isso que nossa protagonista vai desenvolvendo os seus pensamentos sobre as pessoas e a sua vivência no hospital. Por meio dos hábitos de nossa paciente, considerados nem um pouco saudáveis e higiênicos, vamos percebendo o quão as nossas relações são assépticas, o tanto que exigimos de nós e dos outros o comportamento de bonecos de plásticos que não produzem fluidos corporais.

Essa característica temática que me faz considerar o comentário do National Post Canada e, ultrapassando a eroticidade por meio de uma liberdade e de uma curiosidade que levam a protagonista a aceitar os transbordamentos de suas fronteiras corporais, como um romance do corpo, corporal. Pensando nisso, a eroticidade me vem não como originária do Eros da paixão e da atração dos corpos, mas de um que é anterior, o Eros que organiza o Caos. Um Eros harmonizador e compreensivo, que permite não são o entendimento das engrenagens corporais como a sua manutenção.

Então, percebemos que esse entendimento e essa manutenção começam a transbordar não só enquanto corpo físico, mas a psique, numa conjunção que também deve ser harmônica. A percepção se dá quando Helen passa a questionar a conduta de seus pais para consigo, por meio de uma ausência emocional. Eles não conversam sobre o que sentem e mentem sobre o que acontece.

Nesse interím, Helen precisa evacuar sem sangrar, mas evita ao máximo que isso aconteça pois intenciona juntar seus pais novamente, uma vez que são separados.

Dai entramos em outro aspecto no que se refere a manutenção do físico com o psíquico, que é permitir-se livrar dos excrementos produzidos por si. Helen se agarra tanto ao medo de evacuar que dilacera o próprio ânus, sendo levada em uma cirurgia de emergência, na qual tem literalmente o cu costurado. E quando, depois da cirurgia ela percebe que tem que deixar o passado e sua ideia de reunir os pais novamente de lado, evacuando de si as coisas ruins que não a deixam seguir em frente, ela dá o passo necessário para novas descobertas corporo-afetivas, no momento em que também evacua, demonstrando que a sua recuperação física caminha para o sucesso, com a ajuda de Robin, o enfermeiro, numa clara aceitação de se si e do outro.

Ao término da leitura, todo um panorama de como as nossas relações se dão são criadas. Percebemos o quão rejeitamos o nosso corpo, não só enquanto sexualidade, mas enquanto algo mais “funcional”. O mesmo se dá no que tange as nossas relações interpessoais, rejeitando os corpos alheios, a mente alheia. Tentamos a todo custo nos furtar ao que é grotesco no outro e a nos apresentarmos da maneira mais higienizada. Buscamos a higienização corporal, afetiva e social.

A essa higienização, que muitas vezes se torna patológica, por meio das fobias, vão se construindo os mais diversos tipos de preconceitos ao ponto de não aceitarmos nem a sua existência, exigindo a sua eliminação.

São essas as questões e as reflexões, em resumo, que me foram arrancadas na leitura de Zonas úmidas. O band-aid que cobre a capa do livro, como se evitasse ou nos protegesse de todos os excrementos que tentamos a todo custo manter longe de nossa vista, mas que com certa curiosidade, buscamos desvendar ao arrancar o curativo. Uma relação entre velar e desvelar.








Título: Zonas úmidas
Autora: Charlotte Roche
Editora: Obejtiva
Ano: 2010
Págs.: 238

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