11 março 2015

VOLUME 1, VOLUME 2, VOLUME 3... VOLUME 123 – sobre livros seriados, qualidade literária e mercado editorial

Embora livros seriados sempre tivessem existido (As crônicas de Nárnia e Senhor dos Anéis, por exemplo) , foi com o estrondoso sucesso da série Harry Potter que essa modalidade de produção editorial se proliferou, ao que parece, como um vício, entre escritores e leitores. Também podemos considerar o sucesso das séries de tv americana, como contribuinte no processo, haja vista, elas têm se tornado livros e o contrário também (o mesmo tem acontecido no meio cinematográfico), criando assim uma via de mão dupla, que se autoalimenta e auto-reproduz.

Esse mecanismo, que tem sustentado tanto o mercado editorial como o audiovisual, no entanto, é fruto, muitas vezes, não de um plano bem fundamentado em uma ideia e um enredo de escrita, o que torna essas séries livrescas um tanto quanto despropositadas em sua enormidade de informações que apresentam, como se não houvesse tanto um roteiro estabelecido, e que, mais ou menos, deveria ser seguido. Parece-me, nesses casos em que isso acontece, mais uma jogada de marketing, que tem como objetivo prender os leitores as coleções, do mesmo jeito que novelas, seriados e, anteriormente, os romances folhetinescos usavam para segurar a audiência.

Este último dado, o dos folhetins ou romances-folhetins nos afirma o caráter mercadológico da literatura, ao contrário do que muitos acreditam, de ela, a literatura, ser algo nobre e artístico que tem se afundado cada vez mais na lama do capitalismo editorial.

Primeiro que tais romances eram usados pra alavancar as vendas dos jornais, daí o recurso de gancho de um capítulo pra outro, como acontece em filmes, séries (televisivas ou literárias) e em novelas. Segundo que, depois de finda a obra, elas eram lançados em volumes, tal qual acontece com os boxes de livros e séries, e como também temos agora de novelas, no caso das globais.

Mas é certo que isso cansa. Cansa, não apenas pela história que muitas vezes torna-se incoerente, pela quantidade de fatos postos e algumas vezes esquecidos e ignorados no decorrer da narrativa, como também pela saturação que o mercado sofre. Todos querendo o seu quinhão no mais novo tema da moda literária. (Isso é tão verdadeiro, que já se fala em mais uma subcategoria literária, a literatura enferma, que vem logo depois da pornô-literatura para mamães).

E nesse pensamento, não basta escrever apenas um livro com o tema da moda norteando à narrativa, há que se escrever uma história que se desenvolva em vários volumes. O que para muitos autores é um processo deveras torturante, já que nem todos tem o tutano necessário para dar conta dessas empreitadas, tornando assim as suas estórias apenas mais um apanhado de narrativas em meio do oceano editorial.

Assim, percebe-se que eu tenho estado desencantado com essas séries literárias. É certo que estou. Para mim, tem se evidenciado uma falta de caráter, se assim posso colocar, já que não encontro outro meio de por a situação, pois o processo de escrita, como eu o entendo, deve-se pautar no que é extremamente essencial ao que se planeja contar e, mais ainda, creio que o autor que consegue se livrar dos anseios de contar tudo, ou aquele que consegue contar com o mínimo possível de palavras, construindo a narrativa na base da síntese, aquele que deve ser digno de nota.

Assim, não importa muito se o livro tenha 500 páginas ou 90 e poucas, mas o fato dele conseguir realizar o proposto em um livro.

Por exemplo, algum tempo atrás, ao dizer em uma resenha que um livro poderia ter desenvolvido melhor certos acontecimentos, o que tornaria o texto mais consistente, uma pessoa comentou que eu parecia querer que o autor escrevesse uma novela (não no sentido literário, mas mais próximo do gênero televisivo, creio eu).

Ora, o livro em questão mal passava das 250 páginas e lançava-se em um monte de situações resolvidas quase em um passe de mágica. Não era preciso se se escrevesse volumes e mais volumes, mas que se ativesse ao desenvolvimento do necessário. Aliás, há livros curtos que fazem muito bem isso, assim como há livros enormes.

Sim, quero livros muito legais que terminem em um único volume, ao invés de mais 30, 40 volumes pra saber como será o fim da história. E, ao escrever isso, não significa que aquela personagem ou aquela realidade criada pelo autor tenha que terminar nesse volume, pode se fazer o que Patricia Highsmith fez com Tom Ripley ou o que Dan Brown faz com o seu Robert Langdon, que é criar histórias em um único volume, mas que tem conexões com outros livros, contudo, sem estabelecer de fato uma série.

Ou, se tiver que se escrever a história em vários, que ela seja ao menos bem construída e não se pense somente em mercado e em vendas, como parece foi o caso da trilogia Princesa de Copas, que, escrito para ser um único volume, foi dividido em três livros.

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