08 março 2015

Tampa, Alissa Nutting

Imagem: Amora Literária

Tampa, romance de Alissa Nutting e publicado no Brasil pela Editora Rocco, narra a história de Celeste Price, uma jovem e atraente professora de literatura e a manifestação dos seus desejos sexuais por meninos de 14 anos de idade. Celeste é casada com um policial e tem uma boa vida, haja vista que o marido é filho de uma família rica, pelo qual manifesta um sentimento de nojo e desprezo.

O texto começa nas vésperas do novo ano letivo na Jefferson Junior High School, onde passará a lecionar para a turma de oitavo ano literatura. Por conta de uma questão estrutural do colégio, Celeste acaba ficando com uma sala externa – uma espécie de trailer – o que para os planos dela, torna-se uma carta na manga, pois poderá ter uma maior privacidade com os seus alunos, principalmente com aquele escolhido para ser o seu objeto sexual no decorrer do ano.

Mas não pensemos nós que qualquer menino de 14 anos serve. Celeste tem o desejo por um tipo muito específico de garoto, tal qual tinha Humbert Humbert por sua Lolita. O menino, assim como Lolita, tem que ser um que ainda não está sofrendo com a produção intensa de hormônios, que fazem os músculos saltarem, o pelos se espalharem pelo corpo. O que se busca, nos dois casos, é aquele estágio intermediário entre o final da infância e o início da adolescência, um aspecto muitas vezes de androginia.

Assim, o romance se insere no rol dos títulos da tradição erótica, nos quais uma pessoa mais velha e cheia de malícia inicia um (a) jovem nas práticas sexuais (ou pelo menos assim é levado a crer). Sob essa perspectiva, a narrativa tornasse ainda mais fetichizada pelo papel exercido pela Sra. Price, o de professora.

A ideia do professor como um sujeito sedutor não é novo na literatura e menos ainda na vida cotidiana. Lembremos que na Grécia e na Roma Antiga, aos homens mais velhos era incumbida não só a educação dos cidadãos, de fato e de direito, nas artes da guerra, dentre outras, como também nas coisas do amor e das relações sexuais.

O diferencial é o fato de ser dada voz a uma mulher e seus desejos, por mais torpes que possam parecer a nossa cultura. Mis diferente ainda está no fato de ser uma personagem construída por uma escritora (que baseou-se em um caso real). De um modo geral, os escritores são sempre homens e falam da mulher enquanto o seu objeto de desejo, do que elas lhe causam ou do que eles percebem (ou desejam) causar nelas enquanto necessidade sexual.

Em Tampa, a perspectiva é feminina. O centro é Celeste. As descrições dos meninos servem para nos dizer o que ela aprecia, o que mexe com a sua libido, o que ela faz com os meninos serve para mostrar o que a satisfaz. Ela é sempre muito clara em relação a isso, com os seus pensamentos racionalizados e previamente calculados.

Sob muitos aspectos, o narrado é o emponderamento do desejo da mulher esgarçado as raias do que culturalmente consideramos errado e que, por isso, tem que se manter escondido e ser vivenciado na clandestinidade. Quantas mulheres ainda hoje não vivem dessa maneira a sua sexualidade? Quantas mulheres, independente de terem os mesmos desejos que a personagem, não vivem insatisfeitas sexualmente em seus casamentos, dos quais não abrem mão por conta de uma relação de dependência?

O texto também evidencia o pensamento machista que cerca a mulher bonita exercendo alguma função profissional. Embora o desejo da Sra. Price seja condenável socialmente, o contrário não é. Isso quer dizer que, em alguns trechos do romance se percebe e se incentiva o desejo pela professora e da “felicidade” ou “alegria” que seria possuí-la. Também implica que, mesmo sendo moralmente inadequada, é desejada. Como a prostituta, seja a mulher, a transexual ou o homossexual, que não aceitamos em nosso convívio e deslocamos para os lugares mais degradantes socialmente e urbano, mas que buscamos pelas madrugadas em a carne queima e o desejo precisa ser aplacado.
Sobre a questão de o desejo do menino pela professora “gostosa” ser incentivado e mesmo visto como algo do que se orgulhar, temos o seguinte trecho da obra de Alissa:

Em um talk-show, ele [o advogado de Celeste, Dennis] se sentou com o entrevistador enquanto uma foto de meus primeiros dias como modelo de faculdade [Celeste relatando] aparecia atrás deles numa tela grande – eu estava de biquíni, encostada em um carro esporte, meu cabelo louro se abrindo em leque ao vento. – Se você fosse um adolescente – começou  o entrevistador, apontando um dedo torto para a foto –, chamaria uma experiência sexual com ela de abuso? (p. 295)

Ou seja, ser desejado por alguém bonito e levado a ter relações sexuais com esse alguém deve ser considerado como algo bom e mesmo desejável, seguindo a mesma linha de pensamento machista de que “mulheres feias que foram estupradas deviam agradecer o criminoso por ter feito sexo com ela”. Em ambos os casos se nega a sexualidade da mulher. No primeiro, se nega em prol do orgulho do macho, que, mesmo sendo o objeto do desejo, torna-se mais importante que o sujeito que deseja. No segundo caso, a sexualidade é negada porque desmerece a vontade feminina de querer ou não ter a relação, além de humilhá-la ainda mais com a ideia de que é a única maneira que ela tem de ter uma relação, por um viés que a subjuga e agride.

Tampa, por esses motivos, acaba se diferenciando de tantos outros romances eróticos escritos por mulheres e com personagens femininas centrais, porque não coloca a mulher como alguém que deve ser iniciada ou tutorada por um homem. Celeste é decidida e sabe o que quer, tanto sexualmente como em outras áreas de sua vida, e faz o que pode ara conseguir. Deixando de lado um pouco os aspectos morais que envolvem a nossa sociedade, a obra torna-se relevante, ultrapassando o estigma de erótico / pornográfico, por trazer e expor essas questões, algo que ainda não é comum, mesmo no meio literário, no que se refere à mulher.

Um último aspecto que chama a atenção em Tampa é o trabalho editorial e gráfico da Editora Rocco. A Rocco é conhecida por ser algumas vezes descuidada com as edições que produz, seja na diagramação, impressão e mesmo na revisão. Felizmente, não é o que temos em Tampa.









TAMPA 
Autora: Alissa Nutting
Tradução: Maira Parula
Preço: R$ 34,50
Nº de páginas: 320
Assuntos: ficção – romance/novela

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