18 março 2015

Sobre ler e pensar: ideias compartilhadas em redes sociais

De uns tempos para cá, passei a seguir algumas páginas de editoras no facebook, não só por conta do blog que precisava ganhar um novo fôlego, mas também por causa da minha coluna literária n’Os Entendidos.

A partir disso que eu comecei a perceber que, dentre o conteúdo postado e compartilhado por elas, muitas envolviam ideias sobre leitura e sobre a promoção dela. Ora, como alguém que estudou questões relacionadas a leitura, muitas dessas imagens me incomodam.

Incomodam pelo discurso veiculado. Um discurso idealizado, raso e mítico sobre o ato de ler e, não pouco tenho criticado em textos, por meio do meu perfil, as ideias que considero equivocadas sobre ler.

O texto de hoje é justamente sobre uma das imagens que vi recentemente:

imagem divulgação.

Nela se lê “Uma criança que lê será um adulto que pensa”. O primeiro aspecto que me chama a atenção é o atrelamento da capacidade de pensar ao ato de ler, como se só nos inseríssemos no mundo do pensamento por meio do ato de ler, e de que todo ser que se encontra distante deste mundo letrado da leitura (há outros “mundos” da escrita em da qual esse tipo de leitura de livros não faz parte) fosse um ser não pensante. Seriam leitores funcionais, aqueles que leem tão somente para que determinadas coisas sejam executadas, sem que se necessite pensar sobre elas. Tal linha de raciocínio, embora imediatista e superficial, é claro.

É certo que quem produziu a imagem não deve ter querido dizer isso. Porque isso seria excluir toda uma tradição e organizações sociais que não se pautam na escrita e nem na leitura, bem como todo um passado que não foi gravado em pedras, pergaminhos ou na linguagem matemática que sustenta a informática. 

A intenção por trás disso deve ser, provavelmente, o de dizer que por meio da leitura, e consequentemente da aquisição de livros, de preferência novos, comprados em livrarias e, mais preferencialmente ainda da editora em que essa pessoa trabalha, desenvolve-se o raciocínio. Um raciocínio, quem sabe, crítico.

Aqui, mais que a promoção da leitura, temos a promoção da editora e dos livros que ela vende. Temos a ideia de mercado. Claro, não há nenhum problema em querer-se aumentar as vendas, afinal de contas os funcionários precisam ser pagos e os autores precisam de dinheiro para pagar as contas, mesmo àqueles que já estão no olimpo literário.

O problema não está em se querer vender, mas na ideia que é vendida. Quando se fala em uma criança que lê, devemos nos questionar o que essa criança lê, porque como nos diz a regência do verbo ler “quem lê, lê alguma coisa”. Quando se deixa isso em aberto, porque entendemos que se trata de livros pelo contexto em que o enunciado encontra-se inserido, temos que nos questionar: “De que tipo de livro estamos falando?” e “Qual o motivo dessa leitura ser feita?”. Pois a leitura não é um ato em si, como tenho repetido constantemente nos diversos textos que tenho produzido pro blog ou postado nas redes sociais sobre o assunto.

Dependendo da leitura que é feita e com que propósito o pensamento também vai seguir um caminho distinto, não só pelo que o livro nos apresenta enquanto informação, mas o confronto que ele força com o que está posto no mundo, enquanto discursos e ideologias que circulam em torno da pessoa que lê. 

Isso a levará a pensar, mas pensar o quê? Pensar como?

Da mesma maneira que não se pode pressupor que quem lê, pensa; que todo leitor pensante é um pensador critico do que lê e de sua realidade. Exemplos disso ululam por aí. Um grupo critico não é formado pelo simples ato de ler e pensar, mas do que se lê, como se lê, pra que se lê. A leitura e o pensamento surgem dentro de um contexto muito mais complexo de causa e consequência.

Quem lê qualquer coisa e de qualquer jeito, pensará qualquer coisa de qualquer jeito. Qual a vantagem nisso? Se esperasse que a vantagem de se ler seja a formação de leitores críticos e atuantes sobre o que leem e sobre como se comportam no mundo por meio do que leram, crer que ler e pensar são coisas que se bastam, que se basta fazer, é justamente não ter essa visão critica acerca o assunto sobre o qual se enunciou.

Ninguém ganha com isso.

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