09 março 2015

O fracasso da nossa humanidade

Hoje, segunda-feira (09), morreu o adolescente Peterson Ricardo de Oliveira, de 14 anos, que no dia 05, quinta-feira passada, foi agredido em uma escola pública na Vila Jamil, em Ferraz de Vasconcelos, Grande São Paulo.

A agressão, segundo veiculado nos meios de comunicação, deu-se por conta de o menino ser filho de um casal homoafetivo.

Ser agredido por ser filho de um casal homoafetivo, esse foi o “crime” ou o “erro” do jovem. Dar um lar para uma criança foi o erro desse casal, de acordo com a perspectiva daqueles que agrediram.
Com isso percebemos o seguinte, não só a escola e o Estado tem fracassado veementemente na proteção da criança e na promoção do respeito ao próximo, mas toda a sociedade em si, no que se refere ao olhar humano dado ao próximo.

A escola é não só o local onde deixamos os nossos filhos para aprenderem conteúdos, mas também o lugar no qual se exerce a convivência com a diferença e a diversidade e se aprende a respeitar isso. A escola tem que ser um espaço seguro e isso deve ser garantido por um corpo docente preparado para lidar com situações de conflito, com um corpo docente que seja capaz de também respeitar a diversidade e perceber quando ela não está sendo respeitada.

Essas garantias que o espaço escolar deve assegurar não são tão somente advindas de uma postura de princípios éticos da instituição de ensino, mas algo que é garantido nos mais variados documentos oficiais de nossa Federação. E se a escola falha no seu papel, ainda mais sendo mantida pelo dinheiro público, é também uma falha do Estado como um todo.

No entanto, de nada adianta o Estado regulamentar as diretrizes e estabelecer as punições cabíveis se nós, enquanto sociedade civil, não soubermos respeitar o próximo. Respeitar o próximo é algo que vem de dentro de casa. A família, sob esse aspecto, tem falhado vergonhosamente. Crianças que se acham no direito de agredir outras sem nem ao menos entenderem o que estão fazendo, que são incitadas a um ódio ao outro por simples deboche. É, como li recentemente no artigo “A boçalidade do mal” de Eliane Brum, em que transcendemos o tempo da banalidade do mal, vivemos a boçalidade deste, em que é preciso eliminar todo o diferente e faz-se isso sem medo de negá-lo ou mostra-lo, não há mais vergonha em ser mal.

É preciso mais do que nunca uma revolução educacional, que de fato abracemos o slogan: “Brasil, uma pátria educadora” e, mais do que ensinar conteúdos, garantir uma educação de respeito a diversidade, que garanta de fato os direitos descritos no ECA, em outros documentos educacionais e na própria Constituição Federal.

Mas para isso, é preciso que as instâncias governamentais trabalhem em prol disso, ao invés de propagar ideias e ideais fundamentalistas.

Hoje, no dia em que Peterson Ricardo de Oliveira morreu, um primeiro passo, pequeno mas de extrema importância foi dado, que é a sanção da lei sobre o feminicídio, muito embora ele não contemple mulheres transexuais e travestis, o que vai contra a perspectiva de identidade sexual, uma luta forte do feminismo e do movimento LGBT.


Precisamos de mais. Precisamos de uma lei criminalizando a homofobia. Uma lei que garanta o direito da mulher de fazer aborto, de decidir sobre o seu próprio corpo. Mas mais do que leis, é preciso mais humanidade. Uma pátria sem humanidade não tem como ser uma pátria educadora.

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