22 março 2015

Música para ler*

A relação entre música e poesia é antiga. Na Grécia Antiga, poemas eram declamados acompanhados do som da Lira e de outros instrumentos musicais, além disso a poesia ainda traz em si elementos composicionais ainda hoje utilizados na hora de se construir uma canção, como ritmo, assonâncias, aliterações, rimas, estrofes...

Bons exemplos disso são as cantigas medievais, cantadas pelos trovadores.

Nascidas na Occitânia, e depois se espalhando por toda a Europa, tais cantigas falavam de amor, tanto o idealizado e distante, como nos casos das "de amor", como o amor das relações cotidianas, que são relacionadas as canções de amigo, isso porque a palavra amigo era correspondente ao que conhecemos hoje por namorado, tanto que em algumas línguas, como no inglês ‘boyfriend’, ainda há resquícios dessa conotação mais íntima. Há ainda outros tipos de cantigas trovadorescas, como as de escárnio e maldizer.

O que vale ressaltar aqui, é que nesse período a poesia e a música ainda mantinham uma relação, que aos poucos foi se esgarçando, até quase tornarem-se coisas distintas. Assim, a poesia passou a ser apenas lida, e com o advento dos livros impressos em grande quantidade, a ser lida solitariamente, tal como com o romance e se distanciando, nos estilos literários subsequentes, das canções, como fica-nos mais evidente nas poesias sob a égide parnasiana e modernista. Já a música passou viveu períodos de aproximação e distanciamento de linguagens mais poéticas, no que se refere ao trato com a linguagem.

Apresentação de Arthur Nogueira, do Projeto Música Para Ler, no Auditório Benedito Nunes, da Saraiva Shopping Boulevard – Belém/PA, no dia 05.08.12. Foto: Daniel Prestes

Mas há aqueles que, ainda hoje, desenvolvem trabalhos na fronteira entre o musical e o poético, como é o caso, dentre muitos na música brasileira, do cantor e compositor paraense Arthur Nogueira, que durante algum tempo, antes de se mudar para o Rio de Janeiro, desenvolveu o projeto Música para Ler.

Tal projeto consistia em uma apresentação intimista de Arthur, na qual ele conversava, cantava músicas de seu segundo CD, Mundano (2009), e lia trechos de textos e poemas que tinha o hábito e o prazer de ler.


Apresentação de Arthur Nogueira, do Projeto Música Para Ler, no Auditório Benedito Nunes, da Saraiva Shopping Boulevard – Belém/PA, no dia 20.05.11. Foto: Daniel Prestes

Arthur, percebe-se na sua postura musical uma ligação muito forte com a palavra, com a construção de poética da música, desde os elementos rítmicos, passando pelas palavras e chegando na performance. Quando foi que você descobriu toda essa relação da música como algo poético?

Antes de tudo, eu preciso dizer que considero o poema e a letra de música duas coisas distintas. O poema não precisa da música e a letra de canção não precisa, fora da melodia, ter a autonomia de um poema. Porém, o que acontece é que foi a palavra o que despertou o meu interesse em compor e cantar. Tudo começou quando ouvi, por exemplo, Maria Bethânia dizer Clarice Lispector em Rosa dos Ventos, Caetano Veloso musicar Oswald de Andrade e Gregório de Matos, Adriana Calcanhotto tocar no rádio a poesia de Antonio Cicero e Waly Salomão. No Brasil, há muitos poetas do livro que atuam no universo da canção popular - Vinícius de Moraes foi o precursor -, e isso aboliu as fronteiras entre a poesia e a música, tornando a nossa produção, também por esse aspecto, única no mundo. Hoje, quando eu faço música sobre um poema, não penso somente no poema, mas no resultado daquilo como canção.


Sobre o projeto que você desenvolveu em Belém, o Música para Ler, no qual você apresentava canções suas, com trechos e poemas de autores que você tem por hábito ler, como foi que surgiu essa ideia? De onde veio a necessidade de mostrar ao público paraense shows que privilegiavam mais a relação música e palavra, do que apenas uma batida dançante?

Eu sou um leitor de poesia. Naturalmente, as canções que componho partem de um verso, de um poema, de um livro que li. Então, resolvi compartilhar essas referências no palco, seguindo um roteiro de textos e canções. Além do prazer que me causa, gosto desse projeto porque ele se mostra uma ferramenta interessante de incentivo à leitura, que desconstrói a noção de literatura como uma coisa hermética, difícil, restrita a poucas pessoas.

O que você tem desenvolvido desde a sua ida para o Rio de Janeiro? O que podemos esperar dos seus novos projetos e parcerias?**
                                                                                                                  
O Rio me trouxe inspiração, novos projetos e parceiros. Compus com poetas cariocas, como Antonio Cicero e Omar Salomão. Paralelamente, organizei o próximo livro da coleção Encontros - A arte da entrevista, da Editora Azougue, sobre Antonio Cicero. Esse trabalho será lançado em breve. Mais para frente, virá o próximo disco solo, A margem do mundo.

*Esse texto e essa entrevista foram feitos em 2013 e publicados no "Vá ler um livro".
**Arthur atualmente mora em São Paulo e o livro por ele organizado, de entrevistas de Antonio Cicero, pela Azougue, já foi lançado.



PERFIL - Arthur Nogueira é cantor e compositor paraense. Possui dois álbuns lançados, 'Arthur Nogueira' (2007) e 'Mundano' (2009), e um EP virtual, 'Mundano+' (2010). Tem canções com Antonio Cicero, Omar Salomão, Dand M e outros poetas. Para saber mais do Arthur, acessar o site: http://arthurnogueira.com/

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