25 março 2015

Ditadura da leitura

As minhas aulas na disciplina de Ensino-aprendizagem da Leitura e da Escrita, no PPGL da UFPA, foram muito produtivas, principalmente no que se refere às reflexões da minha prática enquanto professor e com temas para essa coluna sobre leitura.

Em uma aula, em que falamos sobre "o problema da imaginação", tocamos no assunto que aqui chamarei de "ditadura da leitura".

fonte da imagem: respiralivros
Esse assunto surgiu no aspecto de como esperamos que as crianças adentrem logo o mundo letrado, da leitura e da produção escrita, o quanto ficamos orgulhosos quando vemos e ouvimos crianças dizendo que frequentam bibliotecas e dizem que gostam de ler e leem de tudo, ao indagá-las a respeito.

E, esse de tudo se formos mais a fundo é, como chegamos a conclusão em sala, tudo mesmo! Desde livros até rótulos de pacote de biscoitos. Mas será mesmo que isso é bom?

Será que é mesmo interessante para uma criança de até seus 08 ou 09 anos estar inserido com tamanha intensidade nesse mundo, em que ela tem que ficar quieta num canto, lendo, ao invés de estar correndo por aí, imaginando e vivendo as próprias aventuras criadas pelas suas mentes mirabolantes? Será que o livro substitui a relação de afetividade que é estabelecida quando um pai, tio ou qualquer outra pessoa conta uma história e, nesse contar toda a performance exigida na contação seja utilizada?

Eu acho que não. Cobramos e dizemos que o mundo da leitura permite mil viagens e aventuras, que se pode conhecer lugares, pessoas e experimentar coisas impossíveis, mas isso também se verifica nas atividades outras das crianças.

Ao cobrar que uma criança largue essa atividade, em troca de ficar quieta num canto, porque se espera que a leitura seja silenciosa, que ela experimente a mesma sensação da correria e da luta de espadas, é de uma ingenuidade sem precedentes. A troca, no caso de muitos, ao invés de despertar o interesse, torna as coisas todas muito enfadonhas e sem sentido, porque não há uma relação estabelecida entre as atividades.

Esse é o primeiro aspecto da "ditadura da leitura": exigir que as pessoas sempre estejam lendo, não importa o quê.

Mas aí você vem e me diz que, justamente, aqui, eu defendi várias vezes que as pessoas têm o direito de ler o que quiserem, qualquer coisa. Sim, ainda defendo essa liberdade de escolha, mas há uma diferença muito grande quando se sabe o que está lendo.

Quando uma criança diz que lê de tudo, ela não sabe o porquê está lendo, quais são os mecanismos que levam ou levaram aquele texto existir. Ela apenas lê, decodifica o código, mas não depreende sentido, ou pelo menos não o faz de um modo muito claro para ela. Nesse aspecto, ler de tudo não traz vantagem nenhuma para quem lê, logo é uma prática dispensável.

O segundo aspecto dessa "ditadura" incide sobre os que já estão inseridos no mundo da leitura e trata-se justamente sobre o que é lido.


É aqui que surgem os preconceitos com os que leem apenas best-sellers, o achar que os que leem clássicos são esnobes e arrogantes, de achar que existem "falsos leitores"... Aqui há o achismo, porque parte de uma ideia muito "particular" do que é boa leitura, do que as pessoas deveriam ler e o julgamento a partir do que elas leem.

Isso não é bom.

"Leia outro livro!"
Não é bom achar que temos que estar 24 h/dia com um livro debaixo do braço e, menos ainda que esses livros tenham que ser apenas do tipo "cult". Querer isso é agir de modo autoritário com o outro e tentar estabelecer regras de conduta que devem ser seguidas rigorosamente, como se numa ditadura vivêssemos.

A questão se torna ainda mais evidente quando lemos nos fóruns, grupos de facebook e outros pontos os quais, leitura, livros e literatura são discutidos, percebemos pessoas angustiadas por não estarem mais lendo ou por terem diminuído o ritmo. Há quem chame mesmo isso de “doença”, a ressaca literária, talvez por falta de um termo melhor, na hora de falar sobre esse problema, mas ainda assim, acreditam que essa “não-vontade de ler” tenha que ser tratada.

Assim, a promoção do hábito da leitura é desvirtuada, criamos pessoas que se tornam insatisfeitas, mesmo lendo, embora não no ritmo acelerado no qual acreditam deveriam fazer, não tantos livros como acham que seria o ideal. Aí, ocorre um desrespeito a si e o que é a ditadura se não um desrespeito ao sujeito. Só que, nesse caso, opressor e oprimido se confundem na mesma pessoa.

Ou então, materializa-se nos imperativos "Desliga a TV e vá ler um livro", por exemplo, vindos não só de pessoas que acham que a leitura é algo mai nobre que a televisão e os diversos programas exibidos pelas emissoras em suas grades, mas também por aqueles que, não aguentando serem criticados por dedicarem seu tempo à telinha, bradam isso, a fim de serem deixados em paz.

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