23 março 2015

Croquis, Hinako Takanaga

fonte da imagem: blyme-yaoi
Croquis, volume único que reúne 04 mangás Boy's Love de Hinako Takanaga, foi publicado agora em Março no Brasil pela editora New Pop.

O volume, com faixa indicativa +18, apresenta um acabamento editorial que não foge muito dos mangás que vemos nas bancas, seja da própria New Pop como de outras editoras que se dedicam à publicação de mangás no país: impressão, papel e revisão que muitas vezes deixam a desejar. No caso de Croquis, há alguns problemas de revisão e as imagens aparecem um pouco embaçadas.

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Capa da edição brasileira. Foto divulgação.
Das 04 histórias, talvez seja Croquis, que nomeia o volume, a que mais nos abra a possibilidade para discussões.

Nela temos Nagi, um garoto que trabalha como modelo vivo em uma escola de artes de dia, e como coadjuvante em um show de coristas, drag queens e transexuais em um clube gay, de noite. Com isso ele pretende conseguir o dinheiro para poder fazer a sua cirurgia de redesignação de sexo.

Porém, algumas coisas mudam em seu caminho rumo à cirurgia.

Durante o trabalho como modelo vivo, ele começa a perceber olhres de um dos alunos, que pressupõe mais que o interesse natural de um artista para com o objeto de seu trabalho. Nagi imagina que Kaji está interessado nele.

Isso lhe parece surreal, já que, como ficamos sabendo por meio dos devaneios de Nagi, nunca nenhum garoto havia se interessado por ele, sendo este justamente o motivo que o levou a desejar fazer a redesignação.

Com o tempo, Nagi e Kaji desenvolve um relacionamento marcado por essas inseguranças sobre a imagem e o corpo de Nagi, mesmo com Kaji insistindo que não há nenhum problema em aquele ser menino, que ele gosta dele desse jeito. As coisas ficam ainda mais tensas por conta dos comentários que suas amigas e colegas de trabalho no clube fazem, sobre ele dizer isso naquele momento, mas que na hora do sexo, que eles ainda não fizeram, tudo será diferente, expondo assim as inseguranças delas em relação aos relacionamentos que tem ou terão e as marcas das mágoas afetivas que acumularam durante a vida como pessoas trans, principalmente quando ainda não fizeram a cirurgia de redesignação.

Assim, em Croquis, temos a ideia de que só sendo do sexo oposto há uma garantia de relacionamento pleno por parte da personagem principal, que acredita que só mudando de sexo é que poderá ser feliz ao lado do garoto que ama. Ou seja, o seu desejo de ser do sexo feminino não advém, como nas outras personagens, de um desejo legítimo de ser mulher, de encontrar-se sob um sentimento angustiante de estar em um corpo que não condiz com  imagem que tem de si. Tornar-se mulher vem de uma pressão social, heteronormativa, que postula que a única forma de se amar afetiva e sexualmente é entre pessoas de sexos opostos, desconsiderando as orientações sexuais e, por conseguinte, as identidades de gênero.

O caso de Nagi é um movimento que, embora em um sentido oposto ao que é mais observado, homossexuais que desejam se tornar heterossexuais por meio do redirecionamento de seus desejos do mesmo sexo para o sexo oposto (um mudança psicológica), para o de mudar a si mesmo fisicamente.

Embora menos observado, quantas pessoas não experimentaram já esse sentimento de que, tivessem nascido no sexo oposto as coisas seriam muito mais fáceis? Quantos, ao se depararem com um desejo diferente do que foram condicionados a aceitar que era o certo, ao descobrir-se em fluxo contrário ao da sociedade não desejaram ou ser do sexo oposto ou desejar o sexo oposto? Quantos não fizeram de sua vida uma farsa por causa disso? Quantos não destruíram a própria vida por causa disso?

Mesmo sendo uma história com um quê de tragicomédia é importante observar o caminho que leva a personagem a se sentir desse jeito, inadequado, porque ele revela a heteronormatividade de nossa sociedade não em discursos homofóbicos exaltados, mas nos interstícios do cotidiano, que vai inviabilizando possibilidades e reforçando modos de pensar e agir quase de forma automática, e que, portanto, não nos põe em movimento do questionar.

No fim, Nagi percebe que é de fato amado pelo que é, um menino adorável e desiste de fazer a cirurgia. Bom seria se essa fosse a realidade de cada menino LGBT, mas não é o que vemos nos dados, por exemplo, de adolescentes que se matam ou se agridem fisicamente por serem o que são.


Obs.: Queria registrar que a condição de Nagi é completamente diferente de pessoas Trans, que tem sim uma inadequação no que se refere ao corpo com o qual nasceram. O caso de Nagi surge por conta de um sentimento de adequação originado por discursos heteronormativos, daí não podermos considerá-lo um transexual.

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