02 fevereiro 2015

De crônicas e farofas: brasileiros

Em uma dessas noites corriqueiras de insônia e um pouco de tédio, peguei o livro de crônicas do Gregório Duvivier, o "Put some farofa", que eu tinha comprado um pouco antes do fim do ano passado, na visita que fiz à Livraria Cultura do Pátio Belém.

A escrita de Gregório é uma coisa que me intriga, embora essa não seja a palavra certa para descrever o que eu sinto em relação a ela. Dele já tenho o "Ligue os pontos", seu livro de poemas e, basicamente, o primeiro contato que tive com ele, tendo em vista que não sou muito frequentador de canais no youtube e, na época, não sabia que ele tinha uma coluna na Folha.

Enfim, achei os poemas uma coisa estranha (de novo, palavras que não definem coisa alguma, de verdade). Não que os poemas não sejam bons, são. Eles têm um quê de bom humor, uma pegada rápida que mistura um monte coisas e ainda permanece no comum das coisas, na paisagem do Rio de Janeiro. Talvez, esse último aspecto, as imagens que ele invoca seja o problema para mim. Eu e minhas reservas com o Rio... deixa para lá.

O certo é que eu, depois de descobrir a coluna de Gregório, dei uma lida em um ou outro texto, nada demais e nem que eu tenha procurado saber, ocorreu apenas que eles pularam na minha frente, como quem aparece sem avisar, nas redes sociais e, naquela de achar um ou outro comentário interessante ou curioso pelo que o título propunha, ia lá e clicava e me aventurava pelos pontos e vírgulas de Gregório. Foi um pouco pelos textos lidos, pelo título do livro novo, por serem crônicas e para ver qual é a que é de Gregório, que resolvi comprar o livro, que eu até já estava com vontade de comprar, mas que sempre arranjava uma desculpa. Afinal, não era um livro super desejado, apenas um livro que eu achava que seria legal ler, ponto.

Então, peguei o livro para dar uma lida, começar a mergulhar no Gregório e, já de cara, me deparo com um texto dos editores falando do título do livro, dentre outras coisas. sobre o título, a farofa nossa de cada dia, mais ainda das viagens á praia e dos churrascos em família era comparada, até onde eu me lembro (também nem sei onde eu deixei o meu exemplar, se vocês o virem, favor me avisar),a própria escrita do Gregório, que conseguia deslizar como um colíbri pelos mais variados gêneros. Gregório é uma farofa, um farofa crônica, em todos os aspectos, porque não parece ser algo que passa assim, depois de um certo tempo, mas que fala, sempre, do dia-a-dia, crônico.

Já no texto dos editores eu fiquei tentado a escrever esse texto, que seria não sobre "farofas" e nem tanto de Gregório, mas de crônicas, um tema que me prendeu bastante atenção durante bastante tempo na minha grduação em letras, tendo sido, inclusive, objeto de trabalhos acadêmicos.

Pensando nisso, percebi uma coisa que me pareceu tão óbvia, que me senti meio idiota de tê-la percebido só naquele momento, que é o fato de todo brasileiro, não importa muito o grau, é um cronista crônico e, portanto, um farofeiro nato.

"De farofeiro e cronista, todo brasileiro é um pouco."

A crônica como sabemos (e se não sabiam, fiquem sabendo agora), é uma invenção francesa. Surgiu quando do aparecimento do Folhetim, não só como nome do genêro literário que logo seria o precursor de nossas novelas e séries, mas também como nome do espaço onde esses textos, como também crônicas, piadas e sei lá mais o quê apareciam. Serviram como um meio de alavancar as venda dos periódicos.

No Brasil, logo fez um sucesso danado. Muitos dos nossos "maiores" escritores começaram como cronistas. José de Alencar é um exemplo. Ele comentava a semana na sua coluna "Ao correr da pena", antes de se tornar editor-chefe de Jornal e usar o espaço pra publicar alguns de seus romances, que depois foram transformados em livros e tal. Machado, Lima Barreto, Guimarães Rosa, Veríssimo, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, Reinaldo Moraes e, até mesmo Tarsila do Amaral, exerceram a função de cronista, bem como uma multidão de tantos outros. A nossa lista de cronistas é longuíssima, talvez chegue a competir mesmo com a Teogonia, de Hesíodo, no número de personagens que compõe a história da crônica brasileira.

A crônica chegou e fez a festa, deitando e rolando, mostrando que a vida comum e o dia-a-dia, muito embora não sendo tão nobres como os romances nos temas, estando sempre ao rés-do-chão, com seus textos para serem lidos na velocidade da pena que a escrevia, pronta pra no dia seguinte ser o invólucro do peixe ou das frutas compradas nos mercados municipais ou feiras de rua,  driblou os preconceitos literários e ficou, para o bem geral da nação. Não adiantou Machado dizer que era difícil. Nem ele e nem ninguém.

Assim, a crônica deu mais que cacho de banana em suas modalidades, do futebol à guerra. Do sermão do clérigo aos desmandos do Governador. Da conversa fiada do trem as estripulias sexuais de algum escritor mais pra frentex. Tudo foi motivo e ainda é para ela aparecer.

Chegou e ficou. Quer uma prova? Só pegar a quantidade de livros com reuniões de crônicas. Pra ficar em três e atualíssimos, temos a Martha Medeiros e a novíssima coleção de seus textos, separados por temas. Há o livro de crônicas da Fernanda Torres e, claro, o "Put some farofa" do Gregório.

Mas porque falar de crõnica como algo inerente ao brasileiro, você padawuan perguntar me vai?

O que nós fazemos na mesa de um bar, num café, na mesa da cozinha ou naquela paradinha básica do cáfe e do cigarro no expediente? Falar das coisas corriqueiras da vida, ora pois! E tudo de um jeito bem humorado, cheio de opinião e filosofia, sarcástico e mordaz. Justamente tudo o que boas crônicas têm. Numa velocidade que não deixa nem a coisa esfriar,embora possa ser requentada, afinal, há temas que nunca se esgotam, mas que merecem uma atenção de não mais de cinco minutos. Porque tudo é muito quente (na maioria das vezes) e tem a praia, a cerveja, o ônibus pra pegar e quando a gente vê jaá tá correndo pra algum compromisso, alguma reunião ou simplesmente correndo, daí que, mais do que nunca, as crônicas são a cara da nossa modernidade, do mesmo jeito que as frases poéticas do Pedro Gabriel dão muito o tom de nossa "poesia", hoje em dia.

E por que somos farofeiros sendo cronistas?

Porque do mesmo jeito que a crõnica se faz com qualquer coisa, a farofa também. Podem ser feitas com qualquer coisa que se tem na geladeira ou na cama, por exemplo. Aliás, a crônica, bem como a farofa, é aquela imagem deliciosa que, numa espiada rápida, temos ao olhar pelo buraco da fechadura.

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