03 janeiro 2015

Quantos livros?

Observando alguns perfis de literatura e de canais literários nesse começo de ano, percebi uma crescente de metas de leitura.  Tive a impressão ligeira de que ler tem se tornado algo como ir pra academia, tem que ser feito todo dia religiosamente, com muito foco, força e fé de alcançar a meta proposta. O que ler tantos livros em um ano faz com você? Se pensarmos só no objetivo de dizer que leu mais que a média francesa, por exemplo, nada. Mas, o Mercado Editorial agradece, com toda certeza.

Pensando nisso, reposto um dos meus textos da minha antiga coluna de leitura, reeditado e atualizado, justamente por ele ir de encontro a essa situação numérica.

fonte da imagem: punk reader

Quantos livros você lê por ano? Dizem que a média do brasileiro é de 04. Dizem, também, que isso é muito pouco e que estamos atrás de outros países da América Latina, países considerados atrasados economicamente.

Mas temos que levar outros fatores em consideração, que não se resumem a pura e simplesmente leitura de livros, como, por exemplo, o número de habitantes de nosso enorme país, as condições da educação básica, o número de adultos analfabetos ou analfabetos funcionais, o preço dos livros, as condições de nossas bibliotecas... Muitas coisas influenciam nos cálculos que dizem ser de número 04 a média de livros que os brasileiros leem.

Outra coisa na qual, também, deve-se prestar atenção, é que não se faz nenhuma distinção entre os livros lidos, assim, podemos estar tratando de livros de direito, que tem uma atualização periódica, com os seus manuais e códigos ou de livros didáticos.

No mais, é tão necessário assim ler dezenas de livros por ano? Ler um livro novo a cada semana? Só pra dizer no final do ano que leu 50 livros? 100? Pra dizer que lê mais que a média brasileira? Que a média francesa? Pra dizer que brasileiro, sim, lê e muito? A quantidade é mais importante do que a qualidade da leitura? E, aqui, com qualidade, não me refiro necessariamente ao que é lido, ou seja, não estou estabelecendo um valor para o que é lido, mas sim um valor para como o que se lê é lido. 

Ler um livro por semana não quer dizer que você realmente o leu, saber a história não é ler. Nesse aspecto, o que você faz com essa leitura, o que você apreende com a história, no que ela lhe toca e lhe transforma, que define o quão a leitura foi realmente produtiva. A leitura se torna efetiva não apenas no durante, mas no depois.

Eu já li vários livros por mês. Inúmeros livros por ano. Reli alguns um bocado de vezes.

Contudo, não sou mais adepto dessa prática. Hoje eu leio menos e isso não é mau, porque a minha leitura amadureceu, ficou com uma qualidade maior.

Não saio mais comprando todos os livros que possam ser interessantes, mas sim aqueles que permanecem na minha mente e quando os leio, dificilmente os termino rapidamente. A leitura se torna um processo, para mim, de apreciação, de degustação do texto. Quando eu percebo uma passagem que me toca e faz pensar sobre o escrito, eu paro e a copio. Faço o serviço artesanal de cópia, o manuscrito. Desse modo, acabo por reler e aprender o processo de construção sintática e organização do pensamento, ou seja, ao “ler e reler e transcrever” aprendo a escrever e com isso a minha leitura transcende simplesmente o ato de decodificação e do saber o enredo.

Esse processo de crivo no que será lido é uma coisa natural, a percebo em vários colegas, que com o passar do tempo vão se tornando mais seletivos nas suas escolhas e isso me lembra o que uma amiga me disse, certa vez, acerca o gosto musical, que era mais ou menos o seguinte: 

A gente chega à  uma determinada idade em que, o que escutamos é o que aprendemos a apreciar em nossa "juventude".

Acredito que seja assim mesmo, que construímos uma espécie de gosto e que, com o passar do tempo ele se refina ao ponto de, mesmo entre textos inseridos em uma temática haverá a seleção do que há de melhor nela e a sua leitura se dará em um ritmo próprio.

Obs.01: preferi não entrar no âmbito do crescimento do mercado editorial brasileiro, pois considerei não ser tão relevante para a ideia que aqui foi desenvolvida.

Obs.02: voltei à prática compulsiva de compras de livros, muito embora ela esteja seguindo a linha dos títulos que se aproximam do que eu tenho por hábito ler ou de autores que eu costumo ler e, também, por questões relacionadas à minha nova coluna literária (quinzenal) “Estante”, no site “Os Entendidos”, ou seja, o número crescente e um pouco mais disciplinado das minhas leituras são necessárias para um trabalho, nas minhas leituras mais pessoais, elas continuam seguindo um ritmo muito mais particular.

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