12 janeiro 2015

Adaptações e traduções literárias

É muito comum ouvir comentários sobre adaptações de obras literárias para o cinema ou para séries de tevê e, a maioria, compartilha um sentimento de desagrado, o que leva a considerar que o “original” é melhor.

Embora tal postura seja muito comum, ela também é superficial, pois deixa de considerar muitas coisas que estão em jogo na transposição de um gênero para outro.

Cada gênero possui um modo específico de organização textual, e para cada estrutura há um modo de organizar e apresentar os elementos que constituem a narrativa, além do mais, há a questão de autoria, pois, embora o romance se apresente com um autor, a adaptação cinematográfica ou televisiva necessitará de outro autor, de outro sujeito que verá a história “fonte” com a sua própria expressividade, e que ela ditará o modo como tudo transcorrerá nesse recontar.

É um trabalho que poderíamos considerar parecido com o de um tradutor, pois, bem como na tradução, nunca se conseguirá alcançar o texto fonte por causa das diferenças linguísticas, e também de cada tradutor e, nesse caso, percebemos, por exemplo, que um mesmo poema apresenta diversas traduções para uma mesma língua, como podemos citar as versões portuguesas de O Corvo, de Poe, feitas por Machado de Assis e Fernando Pessoa. Ambas estão na mesma língua, mas trazem em si diferenças tais que consideraríamos como se fossem poemas distintos, mesmo tratando do “mesmo” enredo; e os dois são excelentes, bem como o texto fonte!

Em adaptações cinematográficas, considero que a adaptação do romance epistolar As Relações Perigosas, feita em 1988, é uma das melhores que já assisti, não por ser fiel à obra, até porque seria bem difícil abarcar todos os acontecimentos, mas porque consegue se ater à essência e encontrar mecanismos que tornam possível que a narrativa se desenvolva, pois devemos lembrar que todo o romance trata de trocas de correspondências entre as personagens.

Já a pior é a adaptação do romance Bonsai, feita em 2011. Assim a considero pois a película não consegue alcançar o sentimento e as referências literárias trazidas no texto e, perdendo isso, perde-se a compreensão da história que nos é contada, tornando-se assim, mais uma dentre muitas.

De um modo geral as adaptações e as traduções, independente se gostamos delas ou não, se nos parecem ser fiéis ou não, nos mostram as possibilidades nas quais o mesmo enredo pode ser apresentado, de acordo com o gênero escolhido, com quem se dispõe a fazê-lo. É um exercício de olhar, de contar e de ler.


Sobre Bonsai:

Indicação de filmes:
Ligações Perigosas (1988), de Stephen Frears.
Bonsai (2011), de Cristián Jímenez.

Indicação de livros:
As Ligações Perigosas, de Chordelos de Laclos.
Bonsai, de Alejandro Zambra.

Indicação de adaptações:
Tempest, de Senno Knife. (Quadrinhos, várias adaptações. Para maiores de 18 anos).
90 clássicos para apressadinhos, de Henrik Lange (Quadrinhos, várias adaptações).
Beijo no asfalto, de Arnaldo Branco e Gabriel Góes (Quadrinhos, adaptação da obra de Nelson Rodrigues).

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ronrone à vontade.