31 dezembro 2014

Rainha de Copas (Queen of Hearts)

Elizabeth Costello acredita que há certas personagens que, de tão interessantes, ultrapassam a obra na qual se encontram inseridas, que precisam ter sua vida contada para além do que o autor da “obra original”. Essa é a explicação que ela dá, por exemplo, sobre o fato de ter escrito um de seus romances acerca a personagem joyceana Molly Bloom.

A prática de se apropriar de personagens e ambientes não é algo incomum no meio ficcional, seja pela mãos de outros autores ou dos próprios criadores deste mundo. No caso dos que não são os autores “originais”, as novas narrativas são comumente classificadas como fanfics, que permanecem, de certo modo, à margem do universo literário tradicional, muito embora possam sair dessa condição. Contudo, estar ou não a margem não implica ter ou não qualidade literária.

É nesse sentido de se debruçar sobre um ambiente e personagens de um universo literário estabelecido, que Colleen Oakes ambientou a sua trilogia sobre Dinah, a futura Rainha de Copas do País das Maravilhas.

A história começa com Dinah em seus 15 anos, órfã de mãe e detestada pelo pai, o Rei de Copas. Ela passa os dias a realizar os seus preparativos com Harris e Emily, para quando assumir o trono ao lado de seu pai na ocasião de seu décimo oitavo aniversário.

Porém, é nessa época que a sua vida parece tomar cada vez mais o caminho da raiva desmedida da futura Rainha de Copas, que tão bem conhecemos de Alice no País das Maravilhas. Acontece que, ao completar seu décimo quinto aniversário, Dinah se vê diante de Vittiore, sua desconhecida meia-irmã, a nova Duquesa do País das Maravilhas e que também passa a ser o centro dos afetos e orgulho do Rei de Copas, para horror da Princesa de Copas.

Logo, Dinah se vê emaranhada em uma rede de intrigas palacianas que tem como único objetivo “cortar-lhe a cabeça”.

Sob alguns aspectos, a história de Dinah me lembra um pouco a história da rainha Mary, da Inglaterra, filha de Henrique VIII e da rainha Catarina de Aragão. Mary também foi uma filha preterida por seu pai em favor de sua meia-irmã, a Princesa Elizabeth, filha da Rainha Ana Bolena. Intrigas palacianas também buscaram impedir a subida ao trono de Mary, uma rainha vingativa e perseguidora dos protestantes.

No primeiro volume da trilogia de Rainha de Copas: A Coroa (subtítulo não mantido na versão brasileira do romance), começamos a ver o desenhar dessas intrigas e o início da luta pela sobrevivência de Dinah.

Sobre a edição brasileira, o trabalho editorial de imagem feito pela Universo dos Livros é de um cuidado, que alguma de nossas grandes editoras deixam de lado, contudo, a tradução carece de uma melhor revisão. Além dos probleminhas que uma leitura um pouco mais atenta evitariam, também poderia ter sido evitado uma repetição, as vezes bem cansativa, de nomes de personagens, como é o caso do nome da Princesa de Copas, Dinah. 

É muito provável que, neste quesito a culpa não seja tão somente da equipe de tradução e de revisão, mas da própria escrita de Oakes, que, com muitas coordenadas desnecessárias, causa esse problema de referenciação e retomadas .

O livro é vencedor do prêmio Next Generation Indie Book Award para Jovens Adultos em 2014, o que dá o que pensar. Ele não é excelente, mas um livro agradável e, algumas vezes, emocionante e, com toda certeza, com uma ideia interessantíssima.

Um comentário:

  1. Onde posso compra o segundo livro da coleção em português?

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Ronrone à vontade.