05 setembro 2014

Tradução em foco

Saramago disse uma frase que pode responder muito sobre as literaturas e que pode nos ajudar a pensar sobre isso [tradução]: os autores criam as literaturas nacionais, mas são os tradutores que criaram a literatura mundial.

Traduzir um texto é muito mais que ter o domínio da língua em que o texto base foi escrito e da língua para o qual ele será vertido. É mais que um processo de tornar o texto inteligível para o outro, em um trabalho de (tentar) estabelecer equivalências linguísticas.

A tradução implica como o tradutor se coloca no texto traduzido, quais as escolhas ideológicas e culturais por ele utilizadas no processo tradutório, que definirá se haverá a neutralização das diferenças históricas e culturais ou se elas permanecerão no texto.

Daí que as possibilidades tradutórias se tornam múltiplas, pois esses "novos" textos poderão ser conformados não apenas pelo respeito a estrutura textual e lexical, no que chamaríamos de "tradução fiel", como em textos que buscam mais a "essência" da ideia do texto base.

Para falar um pouco sobre algumas questões do processo de tradução, conversamos, brevemente, com o graduando em Bacharelado em Tradução da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Thiago Oliveira.

1. Quais são os dilemas enfrentados pelo tradutor, tendo em vista não somente as questões linguísticas de transposição de um texto de uma língua para outra, mas também as culturais, de imaginário e histórico presente na produção de linguagem?
A tradução não é apenas uma operação linguística, aliás, o léxico e o fato de ser uma “língua” estrangeira são os menores problemas que um tradutor tem em seu trabalho. Acredito que meu trabalho é principalmente uma operação entre culturas. O tradutor não está nem na sua língua materna, tampouco na estrangeira. Ele tá num lugar bastante ambíguo, muitas vezes impossível de delimitar. Assim são várias as dimensões que interferem ou entram em jogo quando se traduz: os aspectos contextuais da produção e agora, reprodução da obra, a subjetividade do próprio tradutor, as condições sob as quais o texto foi traduzido (prazos, exigências, características do trabalho, enfim). Não podemos ser ingênuos e pensar que tradução é livre, transparente e contínua, não é reflexo do pensamento do autor. É um trabalho árduo, bem parecido com os açúcar de que fala o Ferreira Gullar.

2. Sabe-se que não há um paralelismo ou equivalência entre as línguas e menos ainda a sinonímia perfeita entre as palavras, assim, poderíamos considerar que, tomando somente o que é concernente a língua, enquanto forma, que a tradução é uma impossibilidade, uma promessa que não se realiza?
Eu não acredito em milagres, mas se acredita. Certamente as traduções seriam uma evidência para isso. Eu discordo dessa ideia de impossibilidade de traduzir, mas também concordo em certos termos. Se pensarmos a tradução como uma cópia, uma reprodução de ideias expressas por um autor que é onipresente e deve ser seguido, isso faz com que a tradução seja impossível. Mas não é assim. Ninguém tem controle ou poder sobre os textos depois que eles estão postos. Acredito que os textos são uma espécie de muralha que não para de subir e descer simultaneamente; eles se transformam nos lugares e ao longo do tempo, e a tradução é parte desse processo de transformação. As traduções são leituras, perspectivas sobre os textos a partir de um determinado lugar e em um determinado período apontado para a singularidade de um leitor que tem a oportunidade de encantar e endereçar a outras pessoas o acesso a um texto que, não fosse sua leitura, talvez estivesse inacessível. Então, não, tradução não é impossível, mas também não é uma cópia transparente.

3. Em relação a Cultura, quais são as implicações que o texto traduzido  traz em relação a olhar o outro?
Não sei se conseguirei responder esta pergunta de maneira clara. Como antropólogo em formação, acredito que cultura é sempre plural, mesmo circunscrita num mesmo espaço. Numa mesma cidade, por menor que seja, várias “diferenças” estabelecem formas de ver a cidade e se relacionar com as pessoas e com o próprio espaço de maneiras distintas; assim também acontece com os textos traduzidos. A leitura do autor e do tradutor sobre um momento histórico, sobre uma prática cultural, sobre um povo são distintas e passam por diversos movimentos de re-significação. É semelhante à clássica discussão sobre as representações racistas do negro em Monteiro Lobato, ou a posição de Machado de Assis no cânone brasileiro em detrimento de sua cor de pele (seria ele mulato, ou é tão “branco” ao escrever que não pode ser negro, restando a ele o incógnito lugar de mestiço, mulato?). Enfim, esses conflitos fazem parte do processo de tradução. Não sei dizer se isso aparece de maneira transparente no texto, acho que depende do desenvolvimento das competências de leitura de cada indivíduo, mas que estão lá, sim estão, e mudarão constantemente.

4. Pode-se compreender o texto traduzido como algo "híbrido", ou seja, um novo texto que comporta não só o texto base, mas o que nele é inserido pelo tradutor, sua língua, sua ideologia e cultura? E, sendo assim, ele seria fruto de um processo de “transcriação”?
Acredito que não há nada inserido no texto traduzido; ele é criado e não enxertado. Evidentemente esse processo de criação é derivativo, mas o que não é? Que o diga Julia Kristeva e sua intertextualidade, ou Chacrinha e a máxima que nada se cria, tudo se copia, Lavousier e sua ideia de transformação, enfim.., Poderíamos remontar até às cavernas sem chegar a uma “origem original”. Mas não, não vejo a tradução como um híbrido, apesar dessa ser uma característica que alguns textos apresentam.  Pra mim tradução é um “terceiro código”, como chamam alguns linguistas e antropólogos, faz parte de um sistema que não é nem o da língua materna, nem o da língua de partida, mas que não necessariamente está no cruzamento (o tradutor, talvez sim esteja aí). Sobre a transcriação, a depender da perspectiva ela pode ser sim um processo de transcriação como propunham os irmãos Campos, mas esse processo de transformação implica em si levar às últimas consequências a ideia de tradução como processo de reescrita, reinvenção, enfim, uma reengenharia que desde muitos séculos atrás alguns teóricos e pensadores refletiram. 

5. Como você percebe o papel do tradutor em relação as obras literárias, a visibilidade a ele dada, levando em conta que, quando falamos da obra, quase nunca ele é mencionado ou, quando é, geralmente é um tradutor que também é escritor? Seria dado mais crédito a esses últimos?
Certa vez o Saramago disse uma frase que pode responder muito sobre as literaturas e que pode nos ajudar a pensar sobre isso: os autores criam as literaturas nacionais, mas são os tradutores que criaram a literatura mundial. Em princípio é isso: a maior parte das pessoas no Brasil que leram Ana Karenina, Guerra e Paz, Cem Anos de Solidão, O Retrato de Dorian Gray, Quixote, Sonhos de Uma noite de Verão, não leram Tolstói, García-Marquez, Wilde, Cervantes ou Shakespeare, mas traduções desses autores. Não sei em que medida uma tradução pode dar visibilidade a uma obra estrangeira, acho que isso depende muito dos contextos nacionais ou culturais que estamos analisando (não podemos pensar que, por exemplo, um autor francês traduzido no Brasil seja tão visibilizado como seria o contrário), mas pelo menos a tradução cumpre um papel muito importante que é disponibilizar os textos. Além disso, acontece algo semelhante sobre os tradutores; nem sempre é um autor que dá visibilidade à tradução, pode acontecer o oposto também, ou mesmo uma anulação, penso em três casos: Macunaíma traduzido na França (nesse caso, o tradutor visibilizando Mario de Andrade), Clarice Lispector traduzindo Allan Poe (nesse caso ambos têm prestígio e pouca coisa muda na economia das letras) e as traduções de Machado de Assis de poetas e poemas franceses de vários românticos poucos conhecidos (nesse caso, seria Machado quem hoje os revelaria para o público). Além disso, acredito que traduzir e escrever de forma “autônoma” são tarefas interdependentes e que podem auxiliar-se reciprocamente, especialmente quando falamos em literaturas. Essa é uma ideia em prática desde Cícero, na Antiguidade, que incentivava os jovens a traduzirem antes de escrevem, para assim adquirir um estilo. Seria o mesmo hoje, algo similar ao que acontece com a leitura, que de forma geral pode ampliar nosso repertório e criatividade na escrita e argumentação.

Texto indicado para leitura: Oficina de Tradução, de Rosemary Arrojo.




Perfil - Thiago Oliveira

Bacharel em tradução e estudante de antropologia, ambas pela Universidade Federal da Paraíba. Apaixonado pela literatura e humanidades, me dedico atualmente à pesquisa no campo da antropologia de gênero e formas de sociabilidade em cidades de pequeno e médio porte.

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