22 agosto 2014

Literatura: Acadêmicos vs. Não-acadêmicos

Foto reprodução. Fonte da imagem: saudeludica

Tudo começou com um debate sobre noção do que é literário ou não, depois um (quase) embate sobre quem seria mais preconceituoso quanto a matéria literária, os acadêmicos ou os não-acadêmicos.

Eu defendia que os não-acadêmicos, aqueles que não estudam literatura e as teorias literárias seriam os mais preconceituosos, assim como acho que quem não é da área de linguagem é mais preconceituoso linguisticamente, por não compreender as teorias linguísticas, principalmente as pautadas nos gêneros discursivos, sintaxe funcional, semântica discursiva e sociolinguística.

Geralmente, essas pessoas que não tem conhecimento dessas áreas tendem a trabalhar com achismos e gostos, elementos muito mais subjetivos de valoração de determinado objeto.

Então, contra-argumentaram que, na Academia, não havia espaço para os livros que não se encontravam no cânone, que não são considerados clássicos e que em sala de aula não se trabalhava o que os alunos gostavam de ler.

Primeiro ponto é: na academia, nas faculdades de Letras, a “Literatura e suas Teorias” compõe uma Ciência, com várias ramificações de análise e atuação, logo o que prevalece não é o que eu gosto de ler, o que eu acho bom e coisa do tipo (embora, haja sim professores que desdenham de tudo que não seja instituído pelo cânone). 

Na academia, você tem que provar, utilizando de metodologias, garantidas pela perspectiva teórica que você segue, as qualidades literárias de determinada obra. Assim, você consegue evidenciar que, mesmo uma obra sendo ‘best-seller’ ela contêm algo em sua composição que é digno de nota, digno de ser estudado.

Não é a toa que várias obras têm estado em evidência dentro das pesquisas, e não só esses “mais vendidos”, como toda sorte de manifestações da linguagem que são consideradas não tão nobres assim. Quem não se lembra das notícias divulgadas, principalmente na internet, sobre o projeto de pesquisa sobre a Valeska Popozuda?

Ali, não há julgamento de valor, mas sim um objeto que será analisado por um viés teórico, que tem uma determinada metodologia e que se utiliza de certas ferramentas de análise. Ou seja, é uma análise científica. É assim que se trabalha na academia. É assim que se trabalha Literatura na ciência.

O segundo ponto é: o do trabalho em sala de aula, com os alunos que ainda não estão dentro das universidades.

Aqui há que se ter em mente que o lugar do qual falamos não é a nossa casa, onde dispomos da nossa estante, mas da Escola, uma Instituição que tem um papel a ser exercido, e sempre questionado, ainda mais quando se torna um ambiente de reprodução de preconceitos e de posturas arbitrárias e autoritárias. Ela deve sim desenvolver o gosto pela leitura (não só de textos literários), mas não pode ficar somente no que os alunos gostam de ler. Ela, como uma de suas funções, tem que, além de apresentar outros horizontes de leitura, levar o aluno a sair da sua zona de conforto, enquanto leitor, justamente para que se torne um leitor melhor. E por leitor melhor entende-se aqui, um sujeito que consiga compreender e construir sentidos e utilizar-se de diversas maneiras possíveis o conjunto de informações ele adquiriu com o que foi lido.

Destarte, concordo que seja feito um trabalho com o literário que também permita ao aluno ler o que ele gosta, mas é necessário que o professor também trabalhe com os autores da tradição literária pertencente ao cânone, porque isso é cobrado dos alunos e não se pode privá-los de conhecer e entender a importância dada a esses autores.

Nesse aspecto, o professor deve ser o responsável por juntar essas duas práticas durante o ensino, que é organizado dentro de um currículo, e esse não é uma camisa de força, muito pelo contrário. O currículo dá as direções dos assuntos, o modo como o professor os trabalhará é de sua inteira responsabilidade, de sua criatividade e boa vontade.

Assim, a prática em sala de aula e o modo como a Academia trabalha o objeto literário e o gosto dos leitores são questões diferenciadas entre si, mas que podem, dependendo de como trabalhadas, serem entrelaçadas, ao ponto de entendermos que não há motivos para que nenhum dos lados torça o nariz pro outro.

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