09 julho 2014

Ressaca Literária – Aquela em que a gente não diz: “Nunca mais eu leio na minha vida...”

Certeza que alguém aqui, pelo menos uma vez na sua vida de pessoa que tem o hábito de ler (até o final do texto vocês entenderão porque eu não escrevi “leitor”), passou ou passará por uma ressaca literária.

Praqueles que não viveram isso ou que já, mas não sabem o que significa essa expressão, ressaca literária é quando você fica sem vontade de ler. Não é preguiça, não é tédio, não é falta de livros que você ache legal, é nada mais que uma impossibilidade de ler.

O filósofo italiano Giorgio Agambem fala um pouco das impossibilidades de leitura, na edição 180 da Revista Cult, de junho de 2013 (e eu falei sobre esse texto aqui). Dentre algumas impossibilidades por ele elencadas, está a acédia, o demônio do meio-dia, que, de acordo com a citação por ele trazida, diz que tal demônio nos faz ficar inquietos, caiamos no sono, calculemos o quanto de páginas ainda faltam para que o livro ou o capítulo acabe ou não entendamos as poucas linhas que lemos, fazendo assim com que tenhamos que as reler diversas vezes, mas sem alcançar êxito.

Isso pode acontecer por vários motivos, mas como o próprio termo “ressaca” nos remete ao abuso de algo, a “ressaca literária” é causada por um excesso de leituras ou alguma leitura que foi forte o suficiente para nos nocautear, mas que não nos faz dizer: “Nunca mais eu leio na minha vida...”, muito pelo contrário, nos deixa angustiados e com vontade de que isso passe logo.

Quem Acompanha, mesmo que esporadicamente essa coluna, sabe que eu defendo a ideia de que leitura se dá no mundo, que ultrapassa a leitura de livros ou a relação entre os meios de narrativos e informativos institucionais e oficiais. A leitura nessa perspectiva se dá nas relações humanas, e é meio para que elas se estabeleçam.

Nessa perspectiva, estamos lendo o tempo todo. Mas, se é assim, como é possível viver uma ressaca de leitura? Como é que se pode escapar disso, já que lemos o tempo todo?

Primeiro, gostaria de pensar a condição do sujeito enquanto leitor, antes de tentar responder essas questões acima.

Para Bakhtin, o teórico da linguagem que norteia os meus estudos, o sujeito é um ser social, que, portanto, se constitui em sociedade e, portanto, em linguagem (nesse contexto Mogli e Tarzan não seriam considerados sujeitos, pois não haviam desenvolvido linguagem e, sendo assim, não estavam inseridos no mundo da cultura, das relações humanas discursivas e simbólicas). Esse sujeito social, embora formado pelas relações sociais, não é como o sujeito social dos naturalistas/realista, que não podia escapar do meio em que foi criado, ele não é fruto do meio, mas fruto da forma como apreende o meio em que está inserido, o qual é sempre contraditório, com forças que ora vão para um lado e ora para outro.

Deste modo, o sujeito bakhtiniano é um devir, ou vir-a-ser, pois sempre em interação com outros sujeitos em devir, estão sempre se modificando. O sujeito bakhtiniano é que nem o rio de Heráclito, no qual nunca podemos nos banhar duas vezes, ou a “metamorfose ambulante”, de Raul Seixas.

Falando em Raul, o sujeito só pode ser essa “metamorfose ambulante”, por estar nesse constante movimento, por dentro (metamorfose) e por fora (ambulante), e ambas estão intrinsicamente associadas, pois ao mudar por fora, ele muda por dentro e vice-versa.

Logo, a condição do sujeito não é a de “ser”, mas a de “estar” em determinado contexto que lhe confere uma identidade, que embora possa ser constante por meio do hábito, não é fixa. Pensando nisso, passo a considerar que “estamos”, e não que “somos” leitores.

Porque ler é uma prática discursiva que só se realiza no momento mesmo da leitura, e aqui já começo a pensar leitura na condição de leitores de livros e outros suportes de leitura, que é justamente o foco do “vá ler um livro”.

Por exemplo, um livro quando fechado é uma possibilidade, ele é um artefato, um objeto. Sua função só se realiza no momento em que o “estamos lendo”, não antes e nem depois de lido. O mesmo pode-se dizer do sujeito-leitor, ele só se realiza no momento mesmo em que está lendo, a não ser que, ao dizer leitor, você esteja se referindo ao mesmo contexto de uso de verbos no presente, que é a de indicar um hábito, algo que seja, de certa forma, uma constante em sua vida. Mas mesmo assim, o leitor é um “estar” e não um “ser”.
O problema é que, muitas vezes, “estamos” demais alguma coisa.

Passamos tempo demais realizando algo com muita intensidade e por tanto tempo, que isso causa um esgotamento, uma ressaca, que no caso de leitores, é essa impossibilidade de ler e que não nos deve angustiar, mas tão somente entender o que nos leva à essa situação.

Isso acontece demais comigo, e não só com livros, mas filmes, video-game, fotografia e estudos. Às vezes, eu não quero fazer coisa alguma, de tão impossibilitado que fico de realizar alguma dessas coisas, mas, geralmente, eu fico alternando entre elas.


Talvez, o melhor jeito de escapar disso, seja buscar o equilíbrio, e eu ainda estou em busca desse Graal.

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