19 julho 2014

A primavera da pontuação, de Vitor Ramil

Fonte da imagem: Vitor Ramil


Imaginem um romance em que as personagens são elementos da gramática: pontos, consoantes, vogais, figuras de linguagem, tipos de rimas, de gêneros poéticos e muitos outros; e todos vivendo no reino de Ponto Alegre. Parece meio aborrecido?

Agora, imaginem que, após o atropelamento de um ponto final por uma palavra-caminhão, uma onda protestos, dos mais variados e das mais variadas facções, tem inicio e que, na sua pluralidade reinvindicatória, o ponto em comum é a insatisfação com o poder público exercido pela figura do Regente, que assumiu o posto após a saída inexplicada do Rei, um monarca destituído de voz e que sofre na mão de sua Rainha, que faz de tudo para deixá-lo longe das questões de Estado e que usa dos serviços dos Agente da Passiva, que trabalha para o serviço de Inteligência, que tem monitorado os movimentos do Compostos Eruditos, grupo radical que busca acabar com os barbarismos linguísticos.

Em um plano geral esse é o que movimenta o romance "A primavera da pontuação", de Vitor Ramil, publicado pela editora Cosac Naify.

E isso é só o geralzão mesmo, há muito mais intriga, conspirações de normativos e diversão neste romance em que elementos linguísticos e linguísticos são parte cosntituinte não só da estrutura, da linguagem adota, mas que estão diluído em tudo o que a narrativa apresenta, que vão se descortinando em cada palvra de duplo sentido, em cada nome, em cada citação, escancarando portas de significação, por meio de palavras-chave, como, assim nos diz o linguísta Sírio Possenti, quem assina a orelha do livro.

O romance, que ao fim traz um texto do próprio Ramil sobre algumas das coisas que nele é tratado, começou a ser escrito no início dos anos 2000, mas só se tornou um projeto consistente após os eventos da Primavera Árabe e das Manisfestações de Junho de 2013 e chama mesmo a atenção não só pros próprios usos de determinados conceitos linguísticos, como no caso de Bilião Hipérbole, que fala de um modo totalmente exagerado sobre as coisas, mas também sobre questões que nos passam batidas, como a função exercida pela pontuação em nossos textos. Tudo com muito bom humor e uma fluidez admiráveis.

"Um livro que começa com um ponto final que quase vai pro beleléu (...)" (PONTES, Natércia) e que termina com um ponto...

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