14 maio 2014

O problema da imaginação [[e por que querem se meter com o Bruxo do Cosme Velho]]

Em uma das aulas do mestrado, na disciplina que eu faço como aluno especial, um ponto das discussões em sala me chamou a atenção, que recai justamente nos aspectos da leitura de determinados clássicos, que é o da imaginação.

O que é mais um problema dos muitos enfrentados pelos jovens leitores ao se depararem com obras "velhíssimas". Um dos mais relatados é sempre o da linguagem, termos que não são mais usados, uma sintaxe complicada, que não nos faz ouvir a voz do autor, porque não conseguimos buscar no nosso repertório de formas de usar a linguagem, quem quer que seja que fale daquela maneira.

Mas porque a imaginação seria um problema, Daniel?

Bom, peguemos um romance realista, por exemplo, cheio de páginas com inúmeras descrições, desde os móveis, incidência da luz, modo de se vestir e assim por diante. Além de não estarmos acostumados com esse tipo de recurso nas narrativas atuais, também não estamos acostumados com os objetos muitas vezes descritos e, passar batido por esses elementos é uma perda muito grande, fora que é muito aborrecido não conseguir depreender as imagens ali descritas.

Assim, a relação com a obra fica prejudicada e leva a uma má vontade para com o que é lido, na maioria das vezes, porque torna incompreensivo o que se está a ler. Desse modo, a leitura dessas obras deveria ser feita de um modo mais contextualizado, fosse por meio de pesquisas sobre a linguagem e sobre o vestuário, mobília, costumes, pois entender todos esses aspectos é também entender a obra, que vai muito além do que acontece enquanto ato narrativo.

Devemos entender que, a narrativa envolve muitos elementos que a compõe, e é preciso saber manuseá-los razoavelmente bem para que a leitura seja de fato proveitosa.

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Esse assunto me parece ainda mais pertinente, depois da tentativa de “reescrever” a obra de Machado, a fim de que ela se torne mais atual linguisticamente e, assim, mais compreensível para os jovens leitores do ensino médio e fundamental II.

Considero isso um desfavor a sociedade, pois ao invés de elevá-los no que se refere ao conhecimento, torna-os cada vez mais incapazes de trabalhar compreensão e interpretação textual de fato, indo de contra o que se pretende com o ensino.

A escola e o professor não estão para facilitar as coisas, eles são mediadores, estão para fazer com que os alunos encontrem mecanismos para uma aprendizagem real e significativa, se fosse para que eles ficassem no mesmo patamar de conhecimento, não haveria necessidade da escola, ou pelo menos de tantas séries e conteúdos.

E se não é necessariamente o ensino que essa proposta foca, quais as reais intenções por detrás de medidas como essa?

A meu ver algumas podem ser elencadas:

O tempo que se despende em aulas para a compreensão desse texto, deixando de lado os “conteúdos” mais normativos da língua, que sabemos ainda serem bastante trabalhados em detrimento de outras perspectivas de aquisição e compreensão da língua.
A própria falta de habilidade dos professores em compreender o que estão lendo.
O ganho financeiro de algum autor e editora que farão essa “reescritura” do texto do Machado, porque, convenhamos, alguém terá que produzir esse material que será distribuído por todo o país e pago com dinheiro público, assim como já acontece com os livros didáticos distribuídos pelo MEC.

Na lista de possibilidades e motivos para se aventar fazer isso com textos, como os do Machado, embora pudesse ser de qualquer outro escritor, penso ser essa última a que mais explica a situação, que é, muitas vezes, apoiada por pessoas que não tem o hábito de ler e que provavelmente acham tais textos difíceis e que, sendo difíceis para si, serão ainda mais para pessoas mais jovens. Ou seja, julgam os outros por sua provável falta de conhecimento e são, assim, levados a crer que fazem um bem, por pessoas “mais espertas” e que tem acesso ao mercado e aos órgãos responsáveis pela educação em nosso país.

Texto atualizado em 13/05/201

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