23 maio 2014

Irônico - O romance "Dias perfeitos".

"Dias perfeitos", publicado recentemente pela Companhia das Letras, é o segundo romance do carioca Raphael Montes, que com o seu romance de estréia "Suicidas", lançado pela Saraiva/Benvirá, foi finalista dos Prêmios Benvirá de Literatura (2010), Machado de Assis (2012) e São Paulo de Literatura (2013).

O enredo de "Dias perfeitos" gira em torno de Téo (Teodoro), um estudante de medicina que tem dificuldades em se relacionar com as pessoas e entender a dinâmica dos sentimentos. Muito prático e racional e sem ter empatia por quem quer que seja, nem mesmo por sua mãe paraplégica, ele vai vivendo uma vida no modo automático, sentindo desprezo pelas pessoas ao redor e desenvolvendo relacionamentos imaginários, como o que vem a ter com Gertrudes, o cadáver que lhe serve como objeto de estudo na aula de anatomia.

Tudo isso "muda" quando ele conhece Clarice, em um churrasco no qual ele é obrigado a acompanhar a mãe. Clarice o questiona, instiga e se insinua para Teodoro, que logo passa a desejá-la. Obsessivamente.

Ele faz de tudo para descobrir coisas sobre a vida dela, a segue e força situações de proximidade, todas rejeitadas pela garota, que decidi dar um basta nessa situação, porém... Téo não aceita bem as coisas e acaba sequestrando e mantendo a garota em cárcere privado dentro de uma bolsa de viagem rosa, enquanto faz junto com ela o trajeto do roteiro que ela está a escrever, intitulado de "Dias perfeitos".

A ideia é mostrar para Clarice que ela pode se apaixonar por Téo, que ele é uma pessoa digna de seu afeto, que juntos eles podem construir um relacionamento.

O leitmotiv do romance é muito interessante, mas a construção não tem uma constância de qualidade, assim, com exceção de uma ou outra parte, o início é arrastado, sem muita emoção ou grande sacada. Nada que nos algeme ao livro, como um bom thriller deveria fazer. Teodoro nos parece uma personagem artificial e rasa, menos que alguém com problemas psicológicos e mais como alguém com traços de megalomania, esnobismo, preconceitos de classe e falta de empatia pelo próximo. Um menino mimado, que encara o mundo como um brinquedo, e isso meio que segue todo o romance, até o seu fim.

As coisas se tornam mais interessantes a partir do capítulo 14, quando a tensão sexual entre ele e Clarice explode e percebemos um pouco de conflito na figura de Téo, coisa que não me pareceu ser visto quando ele assassina "à la Dexter", Breno, ou quando ele vê o jogo ser invertido, mesmo que momentaneamente, por Clarice, a certa altura do romance.

Aliás, o que falta de dinamismo no início, sobra do meio pro final, com todas as reviravoltas que acontecem, tornando a história bem mais interessante, até Raphael decidir fazer como em finais de novelas, condensando o final em uma sucessão de acontecimentos da vida das personagens, até culminar no seu final envolvendo Clarice e Gertrudes.

Por falar em final, em Clarice e em Gertrudes, a ironia final me pareceu de mau gosto. E quando digo isso, me refiro a ser aquele tipo de ironia que não nos faz dar aquele sorriso maldoso de canto de boca e aquela piscadinha maliciosa básica, muito embora seja bem inesperado.







Dias Perfeitos
Autor: Raphael Montes
Editora: Cia. das Letras
Páginas: 274
Ano: 2014

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