07 maio 2014

Ideias sobre leitura

Muito se tem falado sobre a importância do ato de ler na formação do indivíduo. Campanhas, eventos e até mesmo novelas tem envidado esforços de criar um hábito de leitura, muitas vezes pautando-se no canônico e em várias ideias acerca a essa prática. Todos têm que se tornar leitores, porque isso é bom e nos forma como cidadãos críticos e atuantes. Aqueles que não leem ou que o fazem, mas distanciando-se do clássico, acabam por ficar a margem, de certo modo, da cultura letrada.

Com isso, cria-se um ambiente, muitas vezes, opressivo em que a leitura torna-se algo obrigatório enquanto prática social, que deve ser cultivada desde a mais tenra idade, mesmo que a criança não esteja preparada para isso. Tal postura, inclusive, pode gerar inúmeros problemas quanto a compreensão do desenvolvimento desta, no que se refere a sua alfabetização, letramento e, portanto, inserção neste mundo da leitura.

No texto “No manancial dos textos”, do professor Barzotto, publicado no especial de 2009 sobre “Psicanalise & e Linguagem”, da Revista Língua Portuguesa, trata justamente sobre algumas dessas questões, por meio da metáfora do “manancial”, a partir da imagem evocada pela narrativa de Moisés, um judeu que se salva ao ser lançado no rio, enquanto muitos outros pereciam. Assim ele diz que é o que acontece com as crianças que são lançadas em um manancial de textos, sem preparo algum e que muitos, por não ter orientação ou qualquer tipo de ajuda, são engolidos pela água caudalosa deste, tornando-se aquelas pessoas que não desenvolvem as habilidades leitoras, de compreensão e interpretação textual, bem como o gosto por tal hábito.

Isso ocorre, pois se tem a ideia, como nos diz Britto (2003), no texto “Leitura e participação”, de que ‘A leitura é um ato redentor, capaz de salvar o indivíduo da miséria e da ignorância’ (p. 99), ao invés de ser encarada como o que de fato é: uma prática social pautada por valores e saberes socialmente e historicamente dados/construídos.

Pensar a leitura dessa maneira suscita um conjunto de outras ideias, mitos construídos e que reforçam a ideia redentora da leitura, vista desse modo como um ato em si mesmo, e não enquanto meio, possibilidades de. Assim, Britto (2003), lista algumas dessas ideias, as quais trataremos resumidamente abaixo:
1. Cada leitor tem a sua própria interpretação: É claro que muito do que será visto em um texto advém do conhecimento prévio de mundo do leitor, sua formação discursiva, mas há que se levar em consideração que existe uma materialidade que limita e circunscreve ideias, que não podem ser ultrapassadas, ocasionando assim uma super-leitura.  Pensar a leitura desse modo é dizer que qualquer compreensão e interpretação é válida.
2. O sujeito que lê é criativo, descobrindo novos caminhos e novas oportunidades: ler textos pode sim auxiliar no desenvolvimento de raciocínios, bem como encontrar possibilidades outras e ser meio de acesso a informação, mas não garante que isso seja efetivado. A leitura é um veículo de possibilidades, ela, por si só, não muda ninguém e isso vai de encontro a próxima ideia sobre o ato de ler.
3. Uma sociedade leitora é uma sociedade solidária: Ou seja, de que leitores podem mudar o mundo, simplesmente por lerem. Ninguém se torna melhor por ler e, talvez, seja o contrário, por exemplo, ler romances que tratam de problemas sociais como “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, e se sensibilizar com a miséria ali posta, e depois ir debater em uma mesa de bar e bradar aos sete ventos sobre os problemas sociais do Brasil, além de não ser solidário, não mudará o mundo. Agora, retomando um pouco a ideia de Barzotto, e recuperar o que afirma Possenti, no texto “O discurso a respeito de leitura em editoriais da ALB”, temos a leitura como meio de dominação. Isso porque, a leitura de texto escritos sempre foi algo restrito, assim como a educação. Com o surgimento da prensa e do romance, a leitura pode até ter se tornado mais popular, mas perdeu o caráter comunitário que existia, por exemplo, nas práticas de contação de histórias ou mesmo reuniões de declamação de poesia. O ato de ler torna-se um hábito solitário, individual, ressaltando assim valores burgueses, que inclusive passam a ser a imagem dos heróis das histórias que são lidas. Neles há a superação, o protagonista é alguém que tem o mundo narrativo daquele enredo girando ao seu redor, preocupado com as suas dores. Tudo muito “eu”.
4. A leitura é fonte inesgotável de prazer: Ou seja, cria-se uma realidade onde toda leitura tem que ser prazerosa, o que acarreta duas posturas frente a isso: (i) pode-se conseguir prazer apenas lendo, esquecendo-se assim de outras atividades também prazerosas, porque não recebem a valorização dada a leitura; (ii) frustam os leitores quando se deparam com a necessidade de se ler um texto que não lhes trazem essa sensação, aqui entram as leituras obrigatórias. Sobre esse segundo aspecto, eu gosto de pensar a leitura como o caviar. As pessoas que o comem, geralmente o fazem não por o acharem gostoso, por o ser de fato, mas por terem aprendido a apreciar o gosto que ele tem. É um gosto desenvolvido, aperfeiçoado. Ler requer também trabalho.
5. Quem lê viaja por mundos maravilhosos: Ou não. Aqui se tem a perspectiva da leitura como entretenimento, o que nos leva de volta ao ponto 04, da leitura como fonte de prazer...
Todos esses mitos acabam por criar uma certa obrigação, que nos leva a culpabilização por não ter o hábito de ler, de estar sempre com a cara enfiada em um livro, porque estamos negando estar dentro desse mundo maravilhoso, de prazer e de transformação enquanto sujeito; ou mesmo a uma leitura desmedida, que acarreta a ressaca literária.

Deste modo, passa-se do direito a ter acesso ao mundo da escrita, para a obrigação de estar permanentemente nesse mundo, que vem com a validação do leitor de clássicos, da chamada “boa literatura”.

Ora, Possenti, no texto aqui já referido, afirma que a leitura de livros não pertencentes ao canône é também leitura e, portanto, não há textos melhores que os outros, apenas diferentes em sua composição, estilo, meios de produção... E aos que dizem que a “boa literatura” nos faz pensar sobre os problemas humanos e do mundo, devemos ter em mente que depende da leitura que é feita, com quais intenções, do sujeito que lê, porque tanto de um clássico como de um best-seller, pode se fazer uma leitura superficial ou mais profunda, como demonstram artigos e pesquisas acadêmicas.

Pensar a leitura como a “salvadora da pátria”, sem pensar em como ela é feita e como se trabalha com ela, impede a compreensão do que de fato é o ato de ler e de tomada de medidas que fazem dela algo realmente relevante na vida das pessoas.

Referências:

BRITTO, L. P. L. Leitura e participação. In: Contra o consenso. Cultura escrita, educação e participação. Campinas: Mercado de Letras, 2003, p. 99-114.

POSSENTI, S. O discurso a respeito de leitura em editoriais da ALB. In: Questões para analistas do discurso. São Paulo: Parábola, 2009, p. 21-38.

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