21 maio 2014

Essa tal de Literatura

Os defensores ferrenhos da Literatura, escrita assim mesmo, com ‘L’ maiúsculo, parecem desconhecer (ou ignorar) o fato de que os grandes escritores não nasceram grandes e que os clássicos foram precedidos por textos nem tão bons assim, e, ainda assim foram reescritos e reelaborados diversas vezes. Também fazem vista grossa para os mecanismos que definem o cânon, que vai muito além de “apenas” escrever bem.

Muitos textos permaneceram entre nós por terem sido escolhas recorrentes ou terem sido “descobertos” por certa elite (lembrem-se que houve uma época em que nem todos sabiam ler e escrever e que as cópias dos livros eram feitas manualmente, por copistas; assim, livros circulavam entre letrados e de boa condição financeira), por condições políticas, por serem um sucesso de vendas, terem causado polêmicas, seja de forma, linguagem e/ou tema, além de suas qualidades literárias.

Por exemplo, no início do romance como gênero literário, autores vendiam os seus livros praticamente de porta em porta, quando não praticavam a modalidade seriada (romance folhetim) em jornais ou revistas semanais, escreviam boas críticas sobre a própria obra, sob um pseudônimo ou pediam que amigos escrevessem sobre o livro. Eles queriam ser publicados, queriam garantir reconhecimento por meio da “pena”, mesmo que essa função, a de escritor não fosse muito “respeitável”, enquanto atividade 24 horas/dia...

O trabalho de romancista era um hobby, mas todos os que a ele se dedicavam queriam ser comentados nas rodinhas de conversa, serem sucesso de vendas.

Claro que, naquele tempo, a popularidade de um autor não pode ser comparada ao que vemos hoje, mas era suficiente para atravessar o atlântico.

No que se refere à produção literária pautada no que estava na moda e que é muito criticado atualmente, lembro que, Machado de Assis, sim, o grande Machado de Dom Casmurro e toda a trama psicológica que nos inculcou à eterna dúvida se Capitu traiu Bentinho ou não, escreveu, durante muito tempo, crônicas e contos ao gosto da época. Ora, ele precisa pagar as contas, ganhar popularidade, transitar entre os seus. Claro que ele não ficou só nisso, buscou novos mecanismos de uso da linguagem na arte de contar histórias, mas até chegar nesse ponto de sua carreira, ele teve que trabalhar com o que os seus leitores gostavam de ler.

Muitos outros também tentaram fazer o mesmo caminho, mas não sobreviveram ao tempo, muito embora tenham sido best-sellers em sua época. Eles não se tornaram clássicos, pois não sobreviveram a isso, o tempo, já que a permanência é o que configura um clássico e isso se consegue por meio de, dentre várias qualidades, saber o que aliar, o que você quer contar com temas que sejam universais, em uma boa escrita.

Lembremos de Guimarães Rosa. 

Ele não é considerado regionalista, mesmo escrevendo obras extremamente regionais. O que o faz não ser assim rotulado é que, as questões por ele trabalhadas e vivenciadas por suas personagens são universais, ou seja, alguém no sertão ou na Europa partilham questionamentos semelhantes.

Agora, se você já é um autor consagrado, fica mais fácil de tudo o que você escreva seja considerado Literatura... 

Ou você nem é tão conhecido ou mesmo sendo, sua obra não teve boa recepção enquanto vivo, mas acontece que alguém importante (no meio intelectual) diz que você escreveu um livro excelente e que não foi compreendido pelos contemporâneos, então tal obra é elevada a clássico e você deixa de ser um escritor mequetrefe e as pessoas passam a querer consumir o seu livro. Um exemplo disso?! Vermelho e o Negro, de Stendhal.

Essas modulações na escolha do que é Literatura ou não, embora não sejam literárias ou puramente literárias, elas nos fazem compreender a sociedade e os períodos em que elas se situam, além de como elas nos influenciam, por isso é importante que as pessoas os leiam.

Contudo, não devemos nos fechar para os livros produzidos em nossa própria época, que também produz textos de qualidade, assim como em todas as outras acontecia o mesmo, independente de serem campeões de vendas ou não.

Compará-los aos livros que já gozam de status literário é de um anacronismo absurdo, pois, além das condições de produção e a sociedade em que a obra foi produzida serem diferentes, os clássicos têm a seu favor o fato de estarem sobre a luz da crítica e permanecendo nesse patamar há muito mais tempo.

Aliás, esse tipo de discussão sobre Literatura e não-Literatura não é de muita serventia para quem é leitor, principalmente e mais do que nunca hoje em dia, em que ele tem o papel decisivo sobre que é publicado, no que se refere aos temas, por exemplo.

É o leitor quem decide, de certo modo, os movimentos do mercado editorial, que prefere se manter nos tipos de leituras ou autores que estão dando lucro, como podemos confirmar no artigo “Ao contrário da não ficção, romances e contos brasileiros não emplacam boas vendas”, publicado no site da Folha.

Se a proposta é a de fazer com que hábitos de leitura sejam criados e pautados (também) pela leitura dos clássicos, a postura que deve ser adotada é outra, da qual estamos acostumados a vivenciar e a perpetuar nos diversos setores nos quais a leitura está vinculada.

O caminho que penso ser uma solução é a de uma maior flexibilidade de professores e alunos, sem preconceitos de ambas as partes; aulas em que a leitura de textos fosse mais presente, para que as capacidades de compreensão e de interpretação fossem desenvolvidas junto com o conhecimento sobre os mecanismos de funcionamento da língua.

Também é necessário um maior investimento do governo em políticas que fomentem e promova o hábito de leitura, investimentos em bibliotecas, em incentivos que fizessem com que os preços dos livros fossem mais acessíveis à população com menor poder aquisitivo; como também é preciso que editoras invistam em publicidade e em produtos de qualidade e acessíveis, principalmente de autores que não sejam tão comerciais, mas que podem vir a ser, com um pouco de trabalho e dedicação, fazendo com que as possibilidades aumentem consideravelmente para os leitores e para as próprias casas editoriais.

No mais, eu termino esse texto citando um trecho do artigo de Érico Assis “Me joga na parede e me chama de literatura”, no blog da Companhia.
“Não vou brigar para definir o que é literatura, muito menos o que é arte, tampouco falar de status literário. (...). Mais do que querer ser literatura, os quadrinhos podiam almejar o mesmo propósito da boa literatura: provocar boa discussão entre gente inteligente.”
Na citação ele fala especificamente de quadrinhos, mas a linha de raciocínio pode e deveria servir para qualquer produção literária.

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