28 maio 2014

Essa tal de Literatura 02

No texto anterior comentei que havia vários mecanismos que definiam o que vem a ser Literatura e quais são as obras que pertencem a esse seleto grupo.

Dentre esses mecanismos citarei dois e tratarei mais sobre um no decorrer desse texto.

O primeiro entende a literatura como Arte, e o problema dessa perspectiva é que ela trata do objeto literário tão somente pelo viés estético e, convenhamos, muitas obras não estariam por lá se fossem considerados apenas esse quesito.

O segundo meio de definir quais obras são literárias está apoiado no tripé: obra, crítica e leitor, ou seja, para ser literatura a obra precisa ser lida, mas, mais que isso, ela precisa ser recebida pela crítica, e com isso quer-se dizer que a crítica precisa dizer que aquilo é bom e elencar as qualidades do texto, qualidades essas que transpõem o comum em textos literários. Assim, um texto pode ser literário e não alçar ao status de literatura, pois há algo que falta nele para que seja assim considerado.

Nesse modo de definir vocês devem ter percebido que também, assim como em todos os outros meios, o papel do leitor é bem pequeno, que no final das contas, quem decide o que é Literatura é um grupo seleto de pessoas que concordam entre si que o texto é de qualidade, que é uma BRASTEMP.

Mesmo com essa impostura, há algo que não deve passar despercebido quando olhamos mais atentamente os textos que são canonizados, que é a presença de uma tradição literária, pois os bons autores conhecem bem os bons autores que os precederam, eles conhecem a sua tradição e, mais do que repetir isso, eles a utilizam e a transformam, a inovam.

Por exemplo, vemos em Sophia de Mello Breyner, escritora portuguesa contemporânea, toda uma tradição que remonta a tradição greco-latina e que passa por Camões e Pessoa. Sophia traz em si toda uma poética sobre o mar, mas sem repetir o que esses autores fizeram. Ela faz uso da tradição com uma linguagem sua, com imagens que, embora universais, são dela.

O mesmo poderíamos dizer de Ulysses de Joyce, não porque nomeia a sua obra com o nome do herói grego, mas por mostrar que, um homem normal, um não herói, é tão digno de viver uma epopeia e que essa não demora anos e anos, mas apenas um dia e, evidenciando assim que, todos os dias vivemos epopeias e que somos heróis, mesmo não sendo tão nobres como os heróis mitológicos. A tradição está lá e ainda assim não está.

Um bom escritor consegue fazer esses usos e manter a qualidade, porque não basta apenas usar a tradição e modifica-la, é preciso certo grau de trabalho.

Pensando sobre essas questões, podemos, pelo menos por enquanto, justificar os motivos das obras de Paulo Coelho - já tão clichê como exemplo - não serem consideradas literatura.

Ele não é aclamado pela crítica, que justifica o seu posicionamento com base em determinada tradição (ões) literária (s), a (s) qual (is) Paulo Coelho não parece estar vinculado, como também não se vê uma qualidade linguística que foge do senso comum. Não há tradição e nem inovação, mesmo que seja texto literário e que pessoas consumam o que ele escreve (e como consomem!).

Com o aqui posto, percebemos que, para você ser um autor reconhecido como Literatura, há a necessidade de se conhecer a tradição literária (o cânone, alta literatura, literatura, os clássicos ou qualquer outra nomenclatura que você goste de usar pros textos que repetimos ad infinitum que valem a pena serem lidos) e precisa saber trabalhar muito bem essa tradição nos seus escritos, para que assim possa ser reconhecido e aclamado pela crítica. Agora, para ser lido e vender milhares, bem, você só precisa escrever bem (não me refiro aqui a ortografia e a sintaxe somente) e escrever aquilo que povo gosta.

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