30 abril 2014

Os problemas numéricos da leitura

O brasileiro não lê, ainda hoje bradam professores, educadores, e mesmo o mercado editorial por meio de pesquisas ou conversas informais e para tanto utilizam os números de livros comprados por brasileiros em comparação com números de outros países, como Argentina ou da Europa.

Esse discurso é sustentado por realidades que são apenas algumas das muitas variáveis de um contexto muito amplo.

A primeira variável dessa equação é da cultura de leitura desenvolvida nesses outros locais, durante muitos anos. Por exemplo, nada mais comum que ver em filmes franceses as personagens com um livro a tiracolo, fazendo citações... Isso é reflexo de uma cultura leitora, de anos de um hábito desenvolvido histórica e socialmente.

Outra variável é, também, referente a essa comparação numérica e que diz respeito, principalmente, ao mercado editorial. Ora, o nosso mercado é completamente diferente do de outros países, no que se diz respeito aos meios de produção, a saber: papel e impressão, por exemplo. Livros no Brasil são caros, muito mais caros que nesses outros lugares, por conta disso.

Soma-se a isso a realidade econômica da maior parte da população brasileira, e nem adianta vir com os números do Governo Federal, de que milhões de pessoas saíram da zona de pobreza, ascendendo a classe média. Porque essa classe média não tem o hábito da leitura ou ainda com mais dinheiro, não consegue investir na compra de livros. Também tem o número de pessoas alfabetizadas/letradas e o alcance das publicações, em um país como o Brasil, onde o a mobilidade das pessoas em seu território ainda é difícil.

Só esses aspectos modificam radicalmente as perspectivas de vendas e aquisição de livros, mas ainda tem mais.

No caso do que se lê, há ainda a velha e batida história de que só vale a pena ser clássicos e que esses não são lidos, o que me parece ser bem falso, quando penso nos livros de bolso, que se sustentam com a publicação desses e que estão sempre sendo reimpressos e nas mais variadas edições, mesmo aqueles que não são leituras obrigatórias escolares.

E isso só está no plano mercantil da leitura, nas vendas de livros novos e, principalmente, literários.
Mas esses desconsideram outras modalidades de acesso ao livro, como os empréstimos de bibliotecas públicas e pessoais, fotocópias e downloads, vendas em sebos, livros herdados de amigos e familiares.

Quantos livros, inclusive nem mais editados, são lidos por meios dessas modalidades desvinculadas da prática de compra? É algo difícil de mensurar e ainda assim deve ser pensado, porque modificaria o discurso de que brasileiro não lê.

No mais, mesmo sem essas variáveis, só com o número apresentados pelo mercado editorial, algumas questões têm que ser postas: Quanto desses livros vendidos são mesmo lidos? Ou quantos desses livros adquiridos por essas outras modalidades foram lidos? De que tipo de leitura estamos tratando, aquela superficial ou a crítica? Qual a ideia de leitura que permeia essas pesquisas? O que é ser leitor nesses discursos postos?

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