05 abril 2014

Hoje eu quero voltar sozinho - um outro cinema nacional



Na quinta-feira passada (03), ocorreu a pré-estreia do longa nacional "Hoje eu quero voltar sozinho", de Daniel Ribeiro, em algumas capitais do país, como Belém do Pará.

O filme, um desdobramento do curta "Não quero voltar sozinho", volta a tratar da descoberta do amor de um adolescente cego, Leonardo (Ghilherme Lobo), por seu novo amigo, o recém-chegado Gabriel (Fabio Audi), e os abalos que esse relacionamento causa na relação daquele com Giovanna (Tess Amorim), sua melhor amiga, que nutre secretamente sentimentos que vão um pouco além dos de amizade.

E, embora sendo um desdobramento do curta (vale lembrar que Daniel Ribeiro sempre pensou a história como um longa e produziu o curta por questões de produção), o que temos no longa não é a mesma coisa do curta, que o precedeu, mesmo possuindo alguns diálogos e situações parecidas, refilmadas de outras formas.

O mesmo enredo contado de uma forma diferente, o que justifica inclusive a mudança do título, de "Não quero voltar sozinho" para "Hoje eu quero voltar sozinho". Isso porque, além da relação entre os amigos, temos a relação de Léo com os pais, no que se refere a sua independência, algo tão almejado por adolescentes e que, no caso do Léo, se torna mais premente, haja vista sua condição de deficiente visual.

(Abro um parênteses pra dizer que eu achei muito fofa a relação do Léo com o pai dele, que o chama carinhosamente de "leãozinho")

Bullying, homoafetividade na adolescência e deficiência visual, temas um tanto quanto delicados de serem tratados. E, delicadeza é justamente a chave utilizada por Daniel Ribeiro. Uma delicadeza amadurecida nos anos, pois já era visivel desde "Café com leite", e acurado no longa, ao conseguir inseri-los sem transformá-los em bandeiras ou trazer uma carga dramática desnecessária e exagerada, o que transformaria a história em mais caricatura.

Tal característica é o que prende o público, que o faz se identificar com as personagens, a desenvolver a empatia pelo que é visto na película, afinal, quem nunca foi adolescente e sofreu com as dúvidas de ter os sentimentos correspondidos pela pessoa que gosta? Ou que desejou fugir de todos e ter a oportunidade de se reinventar, sendo o mesmo? Ou apenas um pouco mais de liberdade?

Daniel Ribeiro, com o trabalho excelente de toda equipe, consegue fazer um filme maduro, delicado, onde mesmo as cenas que poderíamos considerar mais "fortes" se justificam e são diluídas em imagens mais tocantes, lembrando muito o trato dado em produções cinematográficas do leste europeu para temas parecidos.

Também lembra-me o texto "Por uma nova invisibilidade", de Denílson Lopes, presente no livro "Entre nós", que traz contos sobre homossexualidade e é organizado por Luís Ruffato. Nesse texto, Denílson traz a questão da invisibilidade que talvez nos seja necessária em tempos de enfrentamento. Em tempos em que espera-se que LGBT's se comportem do mesmo modo que seus algozes e opositores. Em tempos em que a exposição midiática e tanta que nos perdemos nas representações.

Mas a invisibilidade que o autor de "Por uma nova invisibilidade" apregoa não é o do assujeitamento, do silenciamento que fere e impõe o armário, muito pelo contrário. A invisibilidade e o silêncio é o da escuta, é o da pausa para a reflexão de um caminho outro para o trato da questão. É o dizer de outra maneira, mostrando a natureza humana dos temas tratados, com naturalidade que nos leva a empatia e ao respeito, porque faz perceber que o que vemos é passível de acontecer com quem quer que seja, pois, citando Fernando Pessoa: "O amor é essencial./ O sexo é acidente./ Pode ser igual/ Ou diferente."

É isso que, pra mim, Daniel Ribeiro faz com toda a sua equipe em "Hoje eu quero voltar sozinho", mostrando um outro cinema nacional, longe do excesso de comédia, do excesso da violência. Cinema de gente grande.

O filme tem estréia oficial na próxima quinta-feira (10).

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