24 março 2014

O discurso fúnebre [trecho]

Em todas as fotos, meu pai aparecia como se estivesse sido imobilizado no meio de um gesto. Em todas elas aparecia assim, como se não soubesse continuar. Mas meu pai sempre soube como continuar, por isso todas as fotos não eram verdadeiras. De tantas fotos falsas, de todas as suas falsas expressões, a sala tornou-se fria. Eu queria me levantar da cadeira, porém meu vestido havia congelado na madeira. Meu vestido era preto transparente. Quando eu me movimentava ele estalava. Levantei e toquei o rosto de meu pai. Ele estava mais frio que os objetos da sala. Lá fora era verão.

MÜLLER, Herta. O discurso fúnebre. In: MÜLLER, Herta. Depressões. tradução Ingrid Ani Assmann. posfácio Ricardo Lísias. - São Paulo: Globo, 2010. p. 08.

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