15 março 2014

Como eu conheci esse livro: Naná

Foi em Santarém, no caminho para Alter do chão, no sítio "Vem me ver" que, em uma tarde em que fomos conversar e, se não me falha a memória, trabalhar na confecção do material pedagógico do "Projeto Rádio pela Educação", que conheci Naná.

Depois de um tempo fazendo o que tínhamos ido fazer ali, ficamos liberados para dedilhar as lombadas dos livros que ocupavam as prateleiras das estantes daquele escritório-biblioteca-quarto de nossa apimentada anfitriã, que embora não seja de pano, tem uma mente tão fervilhada quanto a de sua xará, Emília.

Então meus dedos pararam sobre uma lombada azul com letras douradas que formavam um nome: Naná. Na capa, o busto de uma mulher meio de perfil, meio de costas, seminua, me fitava. Era uma edição desse clássicos universais da literatura, que por algumas vezes a Editora Abril vendia nas bancas. Clássicos com cara de clássicos, em suas capas-duras e letras desenhadas e brilhantes.

Fui informado de que se tratava de um romance francês e, como se isso não fosse o suficiente para fazer meus olhos brilharem, era um daqueles que tratavam de "prostitutas, cortesãs, intrigas e muita dose de paixão - por dinheiro, poder, fama..."; como não querer ler? Ainda mais eu que, já naquela época era apaixonado por livros nesse teor e pela literatura francesa libertina.

Peguei emprestado e enveredei pelo mundo de Naná, uma moça sem talento, que se torna a atração dos teatros parisienses e se torna, também, desejada por vários homens importantes e invejadas por tantas mulheres. Mas Naná é incapaz de não se autodestruir e de aniquilar tudo o que está ao seu redor, o que lhe traz um final... 

Lido o livro e devolvido ao dono, a imagem de Naná permaneceu comigo e, não sem tristeza, um dia soube de sua partida. Ele foi doado ou vendido, não lembro ao certo, quando da mudança de minha amiga Emília de Santarém para Belém, onde eu já residia na época.

Por algum tempo procurei um exemplar da mesma edição em capa-dura e letras douradas com aquela mulher meio de costas e meio de perfil, seminua, que me fitava, mas ela me parecia ter se transformado n'"a passante", efêmera e por isso mais presente em minha vida literária.

Então, para tentar aplacar um pouco do meu desejo, comprei em uma feira do livro, a Pan-Amazônica, a edição francesa da folio classique, lá no stand da Livraria Francesa. Foi como uma toalha quente posta em um corpo febril, já que na época, o meu francês não me permitia ler a obra. Ou seja, eu tinha, mas não possuía.

E, eis que hoje, ao passear na livraria depois da minha aula na especialização, me deparo com Naná, em um exemplar bojudo, numa capa em tons de azuis editado pela Civilização Brasileira, com tradução Marcelo Vieira.

Enfim, Naná volta à minha vida, como uma amante da qual não conseguimos esquecer e de quem não conseguimos sentir senão regozijo pelo retorno e uma felicidade que parece que nunca houve um momento sequer de separação.

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