20 fevereiro 2014

Se nos calamos, tornamo-nos incômodos - se falamos, tornamo-nos ridículos [excertos]

CALAR NÃO É UMA PAUSA DURANTE A FALA, mas algo por si só. Conheço de casa, entre os colonos, um modo de viver que não tinha por costume o uso das palavras. Quando nunca se fala sobre si mesmo não se fala muito. Quanto mais alguém fosse capaz de se calar, tanto mais presença ele possuía. Como todos na casa, também eu havia aprendido a interpretar nos outros as contrações dos vincos do rosto, das veias da garganta, das narinas ou dos cantos da boca, do queixo ou dos dedos e não esperar por palavras. Entre clados, os olhos de nós todos haviam aprendido qual era o sentimento que o outro carregava consigo pela casa. Ouvíamos mais com os olhos do que com os ouvidos. Criava-se uma lentidão agradável, um sobrepeso prolongado das coisas que carregávamos conosco na cabeça. Um peso assim as palavras nem oferecem, pois elas não ficam paradas. Logo depois de se falar, mal se terminou de dizer algo, e elas já estão mudas. E só podem ser pronunciadas individualmente e uma após a outra. Cada frase só tem a sua vez quando a anterior já se foi. Mas no calar tudo está aí ao mesmo tempo, tudo o que por muito tempo não é dito fica retido, mesmo que nunca é dito. É uma condi|ção [80] estável e fechada em si. E o falar, um fio que se rompe a si próprio e sempre tem de ser tecido novamente.

[90] Visto de fora, o escrever talvez se pareça com o falar. Mas por dentro é uma questão de se estar só. Frases escritas se comportam em relação aos fatos vividos mais como o calar se comporta em relação ao falar. Quando coloco o vivido nas frases, inicia-se uma mudança fantasmagórica. As entranhas dos fatos são empacotadas em palavras, elas aprendem a andar e se mudam para um lugar ainda desconhecido durante a mudança. Para continuar com a imagem da mudança, quando escrevo é como se a cama se colocasse numa floresta, a cadeira dentro de uma maçã, a rua corre para dentro de um dedo. Mas também é o contrário: a bolsa fica maior que a cidade, o branco do olho maior que a parede, o relógio de pulso maior que uma lua. Na vivência se tinha lugares, um céu aberto ou fechado sobre a cabeça e a terra, asfalto ou pisos de quarto sob os pés. Estava-se envolvido por horários, havia luz ou noite diante dos olhos. Existia uma contraparte, pessoas ou também apenas objetos. Tinha-se o início, a brevidade ou o prolongamento do tempo sobre a pele. E tudo isso nunca acontecia por causa das palavras. O vivido enquanto acontecimento não está nem aí com a escritura, não é compatível com as palavras. Os acontecimentos reais nunca podem ser apreendidos equitativamente com palavras. Para descrevê-los, os acontecimentos precisam ser modelados em palavras e completamente reinventados. Aumentar, diminuir, simplificar, comple|xificar [91], mencionar, passar por alto - uma tática que tem seus próprios caminhos e o vivido apenas como pretexto. Quando se escreve, arrasta-se o vivido para um outro metier. Testa-se qual palavra pode realizar o quê. Não há mais dia ou noite, vilarejo ou cidade, mas quem comanda são o substantivo e o verbo, oração principal e subordinada, compasso e som, linha e ritmo. O acontecimento real insiste enquanto aparição periférica; com palavras dá-se um choque após o outro. Quando ele mesmo não se reconhece mais, o acontecimento volta ao centro.  Precisa-se demolir a presunção do vivido para se escrever sobre ele, desviar-se de cada rua verdadeira para uma inventada, pois só esta pode se parecer com ela novamente.

[92] A escrita faz do vivido frases, mas nunca um diálogo. Quando aconteceram, os fatos jamais teriam suportado as palavras com as quais seriam escritos mais tarde. O escrever sempre me parece como um caminho sobre o cume, entre o revelar e o manter em segredo. Mas também entre os dois ele varia; no expor, o real se verga para o inventado, e no inventado transluz o real, justamente por não estar formulado. Essa metade não formulada possibilita a corrida errante na cabeça, ela proporciona o choque poético que se tem de deixar como pensamento sem palavras. Ou será que se diria para isso: sentimento.

MÜLLER, Herta. Se nos calamos, tornamo-nos incômodos - se falamos, tornamo-nos ridículos. In: MÜLLER, Herta. O rei se inclina e mata. tradução Rosvitha Friesen Blume. - São Paulo: Globo, 2013.


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