25 janeiro 2014

Fog*

THE FOG comes
on little cat feet.
It sits looking
over harbor and city
on silent haunches
and then moves on.
(Fog, Carl Sandburg)

Chove. Chove cântaros de lágrimas celestiais desde a tenra madrugada. Como eu sei disso? Tu perguntarias e, calmamente, com uma caneca entre as duas mãos, deixando a asa planando no ar morno do quarto, na fumaça branca que acaricia o meu rosto voltado pra ela com olhos fugidios de embaraço, te diria que não dormi um segundo sequer e que passara o tempo todo onde agora me encontro, sentado nessa poltrona, enrodilhado em mim mesmo, com uma garrafa de café perto, que venho tomando a moda escocesa (mas sem o creme), caneca entre as palmas enluvadas e os dedos livres, como tentáculos, de alguma criatura marinha mitológica e monstruosamente homérica, que envolvem apaixonadamente suas vítimas. 

Uma cena em slowmotion na madrugada, causada pelo tempo chuvoso, que se desfiou em pontos e contrapontos aquosos, bordando memórias líquidas, turvando minha visão e clareando os recônditos recalcados de meu inconsciente, tornando-o límpido como o espelho-d’água da Senhora do Lago. No poço de pensamentos que me surgem, iluminados por uma pálida lâmpada incandescente de um poste de luz qualquer de rua, que bravamente luta contra essa chuva e a escuridão de uma madrugada de negra lua, as imagens de nós dois juntos se desenham opacas, como uma aquarela de cores fracas e etéreas. Ou como fotografia em preto e branco pintada com os restos de tinta velha de algum pintor há muito desaparecido.

Descemos a Portugal em direção ao Mercado de Ferro, andando sobre as úmidas pedras de gelo, rio e peixe que me gelam a espinha. Estamos ainda de frente ao relógio ou seria farol? É certo de que sinaliza algo. Caminho. Tempo. Tempo que capto com a objetiva empunhada em minhas mãos, que dispara sequências indefiníveis de transeuntes. É quando percebes um homem de casacos, óculos cachecol, mãos nos bolsos e olhar navegante. Ao observá-lo, me imagino, então, estar perdido em alguma costa litorânea da Irlanda, puro devaneio. Aqui não é solo irlandês, toda essa água a nossa frente não tem sal, não é de mar e, nosso leprechaun é fêmea canora e seu tesouro muiraquitânico resta no fundo escuro do rio, num oceano de régias-flores... Não, não estamos nas terras de encantados, embora tu mesmo já tenhas ido para longe do meu lado. 

O homem de casacos, é dele que, hoje, me pego a recordar desse dia. O dia em que descíamos a Portugal, depois de a termos subido, saídos do Bolonha entretidos com uma conversa sobre doces e o seu último romance.  No retorno, fotografando, registro o homem que me apontas com surpresa.

Levanto-me da poltrona, depois de pousada a caneca-canoro-canto sobre a sólida superfície escura da mesa de moracatiara, desnovelando-me e esvaindo-me, gato-líquido liquefeito em músculos e ronronados, para a concretude do quarto que habito. 

Com uma caixa de sapatos em mãos, sento no leito que um dia compartilhamos, como se fora o peito materno de alguma Jocasta moderna e que hoje não passa de mangue invernal de travesseiros, almofadas e caudalosos edredons em que afundo solitariamente em busca de pertencimento.

Vasculho as fotos daquele dia e descubro que tu, tu és o homem de casacos e cachecol e óculos e mãos nos bolso, em close, de corpo inteiro, em meio ao fog úmido, entre símbolos de nossa cidade. 

És o fantasma que me guia, agora, arrebatando-me de mim mesmo, nas paragens (de cores pesadas e encharcadas de memórias) que aborto em minhas flutuações ofídicas, como as sombras que beijo, dos vultos desfigurados em humildade que me atravessam em amontoados de cheiros e ervas e formas trançadas em cestos de palha e sacolas de feira, que se espalha ao longo da beira do rio-poseidônico. 

Sou levado então por uma luz azulada bruxuleante, a tua luz, que me guia ao meu claustro no presídio perdido de canudos, onde outros tesouros hoje reinam de fronte ao país das Icamiábas amazônicas, no qual sou o único a estar encarcerado pelos amores que naufraguei em uma infinidade de furos e afluentes, com meus olhos de fogo em noites sem lua que os protegessem, alimentando assim a serpente que não quis desencantar e da qual sou devoto. Crimes de amor e de fé. Pagador de promessas perpétuas. Graças alcançadas.

Tu, homem de casaco, tu és o ser que por séculos me tens perdido de mim e me levado a seguir-te como a mariposa que morre no labiríntico fogo que deseja, encarcerando meu corpo até que a nova graça pedida seja concedida por minha Senhora.

Tu és o fog, o vício esfumaçado que compõe meu ser, no vazar e no encher da maré, aos pés da Portugal, que juntos mapeamos ao rés-do-tempo, enquanto o céu encharca a realidade gritada de tua ausência nesse mais um dia qualquer, que me amanhece sem o ter dormido. Exausto, me deixo naufragar em fotografias e memórias desse leito-manguezal.

Desmaia a chuva. Desmaio, eu. O mundo desanuvia-se em sons cotidianos, escoando-te de volta para dentro de mim, em um silêncio brumoso. Resta o café frio pousado sobre a mesa, junto à janela.

*Fog é uma nuvem formada por um conjunto de gotículas de água ou cristais de gelo suspensos no ar ou próximos do chão, que dificulta a visibilidade. Texto de Daniel Prestes da Silva. Belém. Escrito em 10012014. Revisado em 11012014. Complementado em 12012014. Complementado e revisado em 19012014. Nova complementação e revisão em 25012014.

Um comentário:

  1. Ensaio a volta pra dentro, a queda da janela, mas no fim, fico com o café frio.
    Muito agradável "cair" aqui. Escreves muito bem.

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