22 dezembro 2013

Estava no canto...

Estava no canto do quarto esperando o carteiro soar quando resolvi te escrever assim mesmo.
Assim mesmo sem resposta, abrindo meu caderno de notas seis meses depois.
Folheio seis meses à toa; a folha não é macia nem tem marca-d'água extraforte com dobras de envelope que viaja de avião, selado com dois anjos inocentes que rasguei.
Dois anjos inocentes!
A folha é muito dura e hoje é o dia mais longo do ano com ou sem você. Thank you very much, thank you very much. A próxima canção que eu vou cantar é Me Myself I (aplausos fortes e breves e mais longos) que neste verão quero dedicar a você que não me escreve mais e é diretamente responsável pelo meu flerte com o homem dos correios. Tonight...maybe one of these days... he wrote a letter about a girl... Are you ready? One, two, three - estou mestre em abrir envelopes.
"Kiss you anelipsy
            if...?"
Se o quê?
Entendeu agora porque a folha é dura e chupa a tua tinta?
Bota tudo, ele me falou?
Over here on the piano...
and on this side of the stage...
Não estou pegando direito. Porque estão vaiando agora? Você será possível que não avisou que se mudou? Eu estou escrevendo para a peça vazia, para a louca senhoria, para a locatária com mania? Me desculpe mas isso é uma grande covardia. (destaque nosso)

CESAR,  Ana Cristina. Estava no canto... Luva de pelica. In: _____. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. pp. 64-5.

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