23 dezembro 2013

Correspondências

"[...] É peculiar. Peculiar como a arte das cartinhas que os carteiros transportam sob minha formal desconfiança; algumas não chegam nunca e eu acordo de manhã e esqueço um sonho capital; houve um carteiro que foi enfim processado por enterrar as cartas de cada dia no porão da casa; ele enterrava e passava o resto da jornada vadiando contente pelas redondezas de uma cidade chamada Bradford on Avon que tem várias excelências turísticas de séculos atrás e uma vista magnífica do alto do monastério de Saint Mary. Uma dessas que ele enterrou no mês de maio continha todo o meu pathos derramado, belo e secreto como os fatos. Me revolto quando dois ou três dias depois sei que errei lamentavelmente, errei de destinatário na pressa furiosa do derrame; preciso de mais uns dias para o trabalho impiedoso e suave da leveza antes da para cardíaca do nosso encontro no salão." 

CESAR, Ana Cristina. Poética. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 62

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