01 outubro 2013

Muito mais que andróginos no mito de Aristófanes

Platão, em seu Banquete, traz alguns discursos sobre Eros, a chama que nos move, desloca e transforma.

Dentre os palestrantes, chama-me a atenção à fala de Aristófanes, que narra o mito dos andróginos e nos dá uma explicação sobre a eterna condição humana de busca por algo que lhe falta, nesse caso, uma “alma gêmea”.

Andróginos
Diz a narrativa que, antigamente,
nossa natureza outrora não era a mesma que a de agora, mas diferente. Em primeiro lugar, três eram os gêneros da humanidade, não dois como agora, o masculino e o feminino, mas também havia a mais um terceiro, comum a estes dois, do qual resta agora um nome, desaparecida a coisa; andrógino era então um gênero distinto, tanto na forma como no nome comum aos dois, ao masculino e ao feminino [...].
Esse terceiro gênero sendo de uma soberba e petulância, resolve desafiar o poder dos deuses, que na figura de Zeus, decidem-se, depois de confabular muito sobre o que fariam e as consequências de sua punição, que os partiriam ao meio, diminuindo assim a sua força e aumentando o número daqueles que os louvavam.

Assim, partidos ao meio, eles passam a sofrer com a ausência daquela parte da qual foram separados.

Em resumo, é isso que Aristófanes nos conta com o mito do andrógino, mas há outras informações, não centrais, que muito me chamam a atenção e, é sobre isso que tentarei discorrer nesse texto.

Nesse tempo havia a existência de homens, mulheres e andróginos, o que é muito revelador, quando pensamos que, são estes últimos que cindidos, passam a vida em busca da metade que lhes fora arrancada pelo deus.

Ora, isso nos leva a inferir que, homens e mulheres, embora pudessem vir a se unir, não necessariamente estariam destinados a ter uma “alma gêmea”, e, portanto, poderiam passar a vida como solteiros, independente de terem uma orientação mais para os seus semelhantes, o que hoje se denomina homossexuais, ou para os seus diferentes (homossexuais), ou mesmo para ambos (bissexuais).

A mesma linha de raciocínio também explica a prática do adultério, porque, não sendo eles presos a laços tão fortes quanto os que unem as metades dos andróginos, não tem esse compromisso monogâmico naqueles visualizado.

Acredito que perceber isso nesse texto seja um caminho para compreendermos, ou pelo menos encontrarmos certa compreensão de que nem todos estamos destinados a essa relação erótica dos descendentes de andróginos e tão exaltada pelo pensamento romântico-burguês, que para além de se apropriar da ideia, o transformou como sinônimo de busca por um grande amor, e que tanto oprime as pessoas, como você e eu, mas que também não nos impede, mesmo não sendo dessa genealogia andrógina, de encontrar pessoas que nos façam bem.

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