02 agosto 2013

"Pederastas de honra"

17

Os irmãos Desmaret estavam se vestindo para o casamento. Vira e mexe eles eram convidados como pederastas de honra, pois tinham boa apresentação. Eram gêmeos. O mais velho se chamava Coriolano. Tinha o cabelo preto e crespo, a pele branca e macia, um ar virginal, o nariz arrebitado e os olhos azuis por trás dos longos cílios amarelos.

O mais novo, chamado Pégaso, oferecia aspecto semelhante, exceto pelos cílios verdes, o que bastava para distinguir um do outro. Abraçaram a carreira de pederastas por gosto e por necessidade, mas, como eram bem pagos como pederastas de honra, quase já não trabalhavam mais, e infelizmente esse ócio funesto os empurrava, vez por outra, ao vício. Foi assim que, na véspera, Coriolano se comportou mal com uma moça. Pégaso o repreendia com severidade, massageando a pele dos quadris com pasta de amêndoa macho, diante do grande espelho de três faces.

- E a que horas você chegou, hein? - disse Pégaso.
- Já nem sei mais - disse Coriolano. - Me deixa! Vai cuidar dos seus quadris.

Coriolano depilava a sombrancelha por meio de uma pinça de forcipressão.

- Voocê é obsceno! - disse Pégaso. - Uma garota!... Se a sua tia te visse!...
- Oh!... Então você nunca fez? Hein? - disse Coriolano, ameaçador.
- Quando? - disse Pégaso, já meio nervoso.

Ele interrompeu a massagem e fez alguns movimentos de relaxamento em frente ao espelho.

- Chega - disse Coriolano -, não vou insistir. não quero te deixar com a cara no chão. Vem aqui e abotoa a minha cueca.

Eles tinham cuecas especiais, com braguilhas atrás, difíceis de fechar sozinho.

- Ah! - zombou égaso -, tá vendo! Você não pode falar nada!...
- Chega, já disse! - repetiu Coriolano. - Hoje o casamento é de quem?
- Do Colin e da Chloé - disse o irmão, com cara de nojo.
- Porque esse tom? - perguntou Coriolano. - O cara é legal.
- Tá, é legal - disse Pégaso com inveja. - Mas ela tem um peito tão redondo que realmente seria impossível se passar por homem!...
- Coriolano ruborizou-se.
- Eu acho bonita... - murmurou. - Dá vontade de tocar no peito dela... Não te causa esse efeito?...

O irmão olhou pra ele com estupor.

- Mas que canalha você está me saindo! - concluiu com energia. - Você é mais depravado que qualquer outra pessoa... Um dia desses, você ainda se casa com uma mulher!...

VIAN, Boris. A espuma dos dias [L'écume des jours]. tradução Paulo Werneck. São Paulo: Cosac Naify, 2013. pp. 70-1.

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