20130703

O (possível) sentido simbólico das depredações, nas Manifestações pelo Brasil.

Queda da Bastilha (França, 1789). Fonte: infoescola

Ouvindo as notícias sobre o plano plurianual de Belém, manifestações no interior do Estado, bem como de todas as outras que acontece(ra)m por todo o país, principalmente  aquelas em que houve a depredação do patrimônio público e privado, me recordei de um texto do Jacques Le Goff, no qual ele faz uma histoirização da memória.

A certa altura do texto, Le Goff, começa a tratar justamente das inscrições e imagens (estátuas e outros mecanismos evocativos de feitos de determinado governante), que passam a ser "depredados", a fim de que aquilo, caísse no esquecimento, haja visto que ele não mais era considerado "bom". Ele cita essa prática principalmente relacionada aos romanos e ligada aos nomes do Imperadores.

Talvez, e só talvez, isso explique as depredações que aconteceram e é comum em toda grande manifestação que visa uma reconstrução do discurso e suas práticas postas. O exemplo mais claro pra mim disso ainda é a Queda da Bastilha e a Decapitação dos Monarcas Absolutistas Luís XVI e Maria Antonieta. Ora, nesse caso, não foi apenas a tomada da Bastilha, foi também a tomada do poder real de mandar prender quem quisesse. Sob esse aspecto, a Bastilha é símbolo de algo maior que ela, o poder Real que subjugava quem a ele não se submetia. O mesmo ocorre com a execução dos monarcas, ali não é a morte deles, mas o fim de uma prática de governo que estava em colapso. Mais do que a morte de Luís XVI e de Maria Antonieta é a morte da Monarquia Absolutista na França que se sobrepõe, é o simbólico da ação que marca tão fortemente essa imagem, afinal, muitos reis foram assassinados sem que algo tão 'revolucionário' marcasse essa morte.

Pensando essa relação com os atos violentos contra o patrimônio público e privado, durante as manifestações que ocorreram no Brasil, devemos atentar não pelo patrimônio em sim, mas ao que ele nos remete enquanto símbolo.

Bancos atacados é o ataque ao sistema financeiro opressor que além de evidenciar aumenta as desigualdades sociais, porque o financeiro, relaciona-se diretamente com as esferas sociais, culturais, educacionais e todos os "onais" da vivência humana, atualmente.

Carros particulares são o símbolo do egoísmo, que cria muitos dos problemas urbanos de locomoção, poluição e problemas de saúde.

Os prédios históricos, onde funcionam os setores públicos, são a representação do poder. Desse poder de mudar mas que nada faz, que muito pelo contrário só faz se autoalimentar, burocratizar e onerar aos que a ele estão subjugados, estão dependentes.

Ao agir de forma violenta contra elementos como os comentados acima, os manifestantes estão tentando materializar todo o desejo expresso em seus gritos contra os seus opressores e as ferramentas que eles utilizam.

Não existe Revolução Pacífica, pelo menos não que eu conheça na história da nossa humanidade. As conversas e acordos nesses casos nunca são respeitados, sempre houve a necessidade de se impor, do grito, da tomada dos espaços representativos da opressão.

E, embora seja assim, que fique bem claro que não estou incitando, aqui, a violência ou afirmando que ela é feita de caso pensado, de maneira consciente, mas apenas tentando olhar essa violência por uma outra perspectiva, uma que talvez possa ampliar o seu sentido do superficialismo de encará-la apenas como um ato de irracionalidade da bestialidade e incivilidade humana.

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