19 julho 2013

A segunda morte

fonte da imagem: baú de palavras
Me afasto um pouco para que a Senhora entre. Aqui só cabem a penteadeira com espelho e o catre de bronze. A desordem dos lençóis é tão irrelevante que ninguém adivinharia que uma mulher agonizou nele há quarenta e oito horas. Aqui, Brígida, continua viva. Esta unidade ainda é ela, mantém outra Brígida viva enquanto seu corpo começa a criar bicho: esta ordem peculiar, estes objetos que ela foi gastando com seus hábitos e suas manias, esta intenção de elegância, olhe, madre Benita, como ela dispôs as palmas do Domingo de Ramos num canto da estampa da Anunciação, como recobriu com papel de presente da Páscoa a garrafa de coca-cola que utilizava como vaso. Retratos da família Ruiz Santos. Suas mãos cuidadíssimas foram capazes de reconstruir os bordados de certas casulas que o padre Azócar levou consigo porque disse que eram do século dezoito, valiosas demais para deixar estragar nessa casa, a única coisa de valor que existe aqui, madre Benita, o resto é tudo lixo, incrível que a oligarquia deste país tenha sido incapaz de juntar outra coisa que não lixo, aqui. E sobre a penteadeira, a senhora pode conferir com a ponta de dois dedos, sem mover os objetos, a fila perfeita formada pelo dedal, pela almofada de alfinetes, pela lima, pela tesourinha, pelas pinças, pelo polissoir para as unhas, tudo em ordem sobre a toalha branca, fresca, engomada. A senhora e eu viemos esquartejar essa Brígida viva, madre Benita, reparti-la, queimá-la, arejá-la, eliminar a Brígida que quis perdurar na ordem de seus objetos. Apagar os seus rastros para que amanhã ou depois nos mandem outra velha que começará a imprimir a este lugar os traços da forma particular, só um pouco diferente mas inconfundivelmente sua, que irá assumindo sua agonia. Ela tomará o lugar de Brígida como Brígida tomou o lugar de... não lembro como se chamava aquela velha silenciosa, de mãos deformadas pelas verrugas, que morava neste casebre antes da chegada de Brígida...

DANOSO, José (1924-1996). O obsceno pássaro da noite. tradução Heloísa Jahn. São Paulo: Benvirá, 2013. pp. 22-3.

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