04 junho 2013

Paixão tormentosa

fonte da imagem: holy angel
"Portanto, vou colocar em palavras uma coisa que eu esperava que você entendesse sozinho. Você quer sair com essa outra mulher porque eu não ofereço o que você sente que precisa, especificamente paixão tormentosa. A amizade em si não basta para você. Sem o acompanhamento de paixão tormentosa é um tanto deficiente."

"Aos meus ouvidos, essa é uma maneira velha de pensar. Na maneira velha de pensar, por mais que você tenha, sempre está faltando alguma coisa. O nome que você escolhe para dar esse algo mais que está faltando é paixão. Mas eu aposto que se amanhã te oferecerem toda a paixão que você quer, carradas de paixão, você logo vai achar que está faltando alguma coisa nova. Essa insatisfação sem fim, esse anseio pelo algo a mais que está faltando, é o jeito de pensar de que fazemos bem em nos livrar, na minha opinião. Não está faltando nada. O nada que você acha que está faltando é uma ilusão. Você está vivendo uma ilusão." (pp. 73-4)

As coisas não têm seu peso devido ali: é isso que, no fundo, ele gostaria de dizer a Elena. A música que ouvimos não tem peso. Nosso ato sexual não tem peso. A comida que comemos, nossa dieta enfadonha de pão, não tem substância - falta a substancialidade da carne anima, com toda a gravidade do sangue derramado e do sacrifício por trás. Nossas próprias palavras não tem peso, essas palavras em espanhol que não brotam do nosso coração. (p. 75)

COETZEE, J. M. A infância de Jesus. tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. pp. 73-5.

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