12 junho 2013

O Jesus de Coetzee

Em busca de uma nova vida, Símon e David atravessam o oceano e chegam, depois de terem passado pela região agrícola de Belstar, em Novilla, livres de tudo que os liga ao passado, incluindo aí, não apenas as lembranças, mas os nomes, língua e modo de se relacionar socialmente.

Símon e David não são parentes. David, o pequeno menino de mais ou menos cinco anos de idade, tem a sua guarda tomada por Símon, que se dispõe ajudar o garoto a encontrar sua mãe, depois que o menino perde a carta que carregava consigo, e que trazia as informações de quem eram seus pais.

Em Novilla, eles recebem ajuda do setor de realocação, que lhes dá um lugar para viver, também recebem ajuda no que se refere a uma vaga de emprego para Símon, que vai trabalhar nas Docas, como estivador, descarregando, dia após dia, sacos de cereal.

Embora experimentando uma nova vida cheia de boa vontade entre as pessoas ao redor, Símon encontra dificuldades de adaptação, não só em relação á língua, como também no que se refere a toda essa boa vontade e placidez “submissão” a essa horizontalidade que a vida adquire.

Símon não esquece, mas não consegue definir bem o objeto de suas lembranças, para ele são “lembranças de ter lembranças”, há uma ânsia, uma fome, uma paixão que leva sempre ao desejo. Um desejo que vai desde as coisas mais básicas da vida, como querer ter uma refeição com mais gosto, algo que vá além do pão insosso que come todos os dias, passando pelas febres do corpo, do contato íntimo, chegando até questões mais abstratas. Tudo pautado por reflexões e embates filosóficos.

Em meio a isso, ele tem de encontrar a mãe do menino e ao encontra-la tem que aprender a como se viver nessa relação, onde ele deixa de ser o guardião, mas ainda sente um vínculo forte com o menino.

É necessária a compreensão dos papeis que devem ser desempenhados, tanto de Símon como de Inês, a mulher que se torna mãe de David. Pois eles se tornam a família do menino, uma família que não é a família “real” dele, que é a família de um menino que a origem é completamente desconhecida e de como isso, sempre é reiterado, muitas vezes pelo próprio menino.

E, durante esse processo de aprendizagem de construção familiar, a preocupação em como criar esse menino, que vai encantando e agregando pessoas a sua vida, à sua família.

De um modo muito básico e sucinto, essa é a essência de “A infância de Jesus”, que, como própria indicação do título, traz inúmeras referências a história e ao pensamento cristão.

O romance escrito pelo sul-africano e ganhador do Nobel de 2003, J. M. Coetzee, foi publicado pela Companhia das Letras, assim como outras doze obras desse romancista, que também é ensaísta e tradutor, tendo exercido a profissão de professor de literatura, nos Estados Unidos. Atualmente, mora em Adelaide, Austrália, desde 2002.








Título: A infância de Jesus
Autor: J. M. Coetzee
Tradutor: José Rubens Siqueira
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 304

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