06 maio 2013

A vida privada das árvores - muito além do tempo do relógio

A vida privada das árvores é o segundo romance do chileno Alejandro Zambra e o segundo publicado no Brasil pela Cosac Naify (o outro é Bonsai).

Zambra, além de romancista, é também professor universitário e gosta de bonsais. O autor foi escolhido pela Revista Britânica Granta como um dos melhores 22 jovens escritores de língua espanhola. Nessa edição da revista Granta foi publicado o primeiro capítulo de seu terceiro romance (ainda inédito no Brasil), intitulado de Jeitos de voltar para Casa.

Em A vida privada, nos deparamos com Julián, que espera, junto com Daniela (sua enteada), a volta de Verónica, e essa espera, que acontece noite adentro e somente durante essa noite, marca o primeiro tempo de uma narrativa marcada por tempos que acumulam e sobrepõem-se uns sobre os outros, ao lado, adiante e atrás.

Essa noite, que é toda a extensão do romance, é estranha pela espera ansiosa que quebra a rotina dessa família, jogando-a no desconhecido, numa realidade em que tudo fica em suspenso e, "quando ela [Verónica] voltar, o romance acaba. Mas enquanto não volta o livro continua. O livro segue em frente até ela voltar ou até Julián ter certeza de que ela não voltará mais".

Enquanto espera, Julián tenta ocupar-se. Primeiro ele coloca Daniela para dormir, lhe contando histórias da vida privada das árvores, nas quais "os protagonistas são um álamo e um baobá que de noite, quando ninguém está vendo, conversam sobre fotossíntese, esquilos, ou sobre as numerosas vantagens de serem árvores e não pessoas ou animais ou, como eles dizem, estúpidos pedaços de cimento".

Quando Daniela dorme, Julián tenta se ocupar de outras maneiras e, assim, mergulha em considerações, pensamentos, lembranças de sua vida, indo de encontro ao passado, suas relações anteriores, como a que viveu com Karla (sua namorada anterior), até chegar em Verónica.

E, ao fazê-lo, chega a seguinte afirmativa: "Verônica é uma mulher que não chega, Karla é uma mulher que não estava". 

Esse é o tempo do passado, das memórias, que junta-se ao tempo da noite ansiosa de espera, permeada de justificativas e histórias que vai criando para o atraso de Verónica.

Logo, Julián começa a deixar o passado de lado e a expectativa de chegada da mulher para construir possibilidades de um futuro. Um futuro que não depende de Verónica, a mulher que não chega, e que vai entrelaçando ainda mais a relação de Daniela consigo. Ele começa a imaginar o futuro da menina, que dorme no quarto azul.

Assim, temos Daniela aos 15 anos, aos 20... até chegar aos 30, vivendo sempre no mesmo apartamento. Vivendo aos 30 anos com Ernesto. Daniela aos 30 anos, psicóloga e com um programa de rádio.

O tempo das memórias futuras...

E, então, a noite e o romance seguem agigantando-se em tempos sobre tempos. Tempos internos do próprio romance ao tempo de leitura do romance, porque, a história contada por Zambra é como "o romance de Julián [que] é tão curto que meia hora seria o suficiente para lê-lo". Mas não se engane, pois as 91 páginas que compõe esse romance é denso e submerso em temas como solidão e ansiedade.

Além disso, há elementos e um estilo bem zambrianos, como a apresentação logo no início de uma situação final, o modo como é feita a descrição das personagens, distanciamento entre os amantes, que criam entre si rituais que, quando quebrados, rompem com a relação existente entre eles, a presença de bonsais e citações literárias.

Há também referências inusitadas da cultura pop atual, que são um verdadeiro achado, fazendo-nos sorrir ao percebê-los, como no caso da menção de Cosmo e Wanda, que são os peixinhos estranhos de Daniela, uma citação aos personagens de mesmo nome, e que também adquirem a forma de peixes, do desenho animado "Os padrinhos mágicos".
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A noite descosturada é outro texto sobre A vida privada das árvores, publicado no blog da Cosac Naify e de autoria de Antônio Xerxenesky.








A vida privada das árvores
Autor: Alejandro Zambra
Tradução: Josely Vianna Baptista
Texto de orelha: Valéria Luiselli
Editora: Cosac Naify
Páginas: 96

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